quinta-feira, 24 de abril de 2014

MEU GUIA NAS TREVAS



     Talvez o contato mais estreito que já tive com a morte fosse o que se verificou num corredor de hotel em Dayton, no Estado de Ohio. Esse quase desastre ocorreu porque eu sou cego. Mas não precisava ter acontecido absolutamente e foi apenas por minha própria culpa.
   Eu estava escalado para falar numa grande convenção naquela noite, o trem chegara atrasado e eu estava em cima da hora. Em companhia de Buddy, a cadela-guia que substituía os meus olhos, corri para o meu quarto no 14º andar. Quando acabei de me preparar, só me restavam 15 minutos para chegar à sala onde se reuniria a convenção. Tinha de descer o mais depressa possível e tomar um táxi.
   Em companhia da minha onipresente companheira, embarafustei pelo corredor rumo ao vestíbulo dos elevadores. Ali, Buddy parou bruscamente. Ela, que sempre se encaminhava para qualquer elevador e apontava com o focinho, para orientar-me, o botão de chamada, não se aproximou daquele. Não tomou o menor conhecimento da ordem de "Adiante" que lhe dei. Diante disso, na pressa em que estava, fiz o que nenhum dono de cachorro-guia deve jamais fazer. Larguei a trela e segui à frente sozinho.
   Buddy imediatamente se atravessou diante das minhas pernas, empurrando-me com tanto vigor que eu não pude mais prosseguir. Nesse momento, uma empregada que saía de um dos quartos deu um grito de pavor.
   —Não se mexa!—exclamou ela. —A porta do elevador está aberta, mas o elevador não está aí! Há apenas o buraco escancarado!
   Meus joelhos quase se dobraram. Se Buddy me tivesse deixado dar mais dois passos eu teria desaparecido no poço do elevador vazio!
   Naquele instante de gratidão e revelação, brilhou-me no cérebro a compreensão perfeita do que significava para mim a lealdade e a inteligência daquela bonita cadela de raça pastor alemão. E não apenas para mim, mas para todos os cegos que alcançaram a liberdade e a independência, graças ao emprego de cães-guias ensinados. Porque Buddy foi o primeiro cão que serviu de guia nos Estados Unidos. Todos os seus atos eram acompanhados da mais ampla publicidade e observados com uma curiosidade que a princípio era profundamente céptica. Se a sua atuação não tivesse sido brilhante e impecável, é bem possível que o programa de treinamento de cães para cegos jamais tivesse sido posto em prática.

   Até poucos anos antes, eu nunca tinha ouvido falar em cachorros ensinados para servirem de guias a cegos. Tinha eu então 20 anos e era cego havia quatro. Perdi o olho direito aos seis anos numa ocasião em que, andando a cavalo, dei com o rosto num galho de árvore. Depois, aos 16 anos, levei um soco infeliz numa luta de boxe e daí a dois dias deixei de ver. Não tinha intenção de tornar-me um desses lamentáveis cegos que às vezes se veem e que dependem dos outros para as suas menores necessidades. Havia algum tempo que eu cursava uma universidade e fazia corretagem de seguros depois das aulas. Tinha, porém, grande dificuldade em movimentar-me. Certa vez, tateando com a minha bengala, caí numa vala mais alta do que a minha cabeça e tive de esperar uma hora humilhado até aparecer alguém que de lá me tirasse. Em outra ocasião, um motorista bateu no meio-fio para não me atropelar, capotou com o carro e só por muita sorte saiu ileso. Esses enervantes acidentes mostravam claramente que eu precisava de mais alguma coisa do que uma bengala.
   A coisa não melhorou muito quando contratei um garoto para me guiar. Eram muitas as manhãs em que ele não aparecia e eu tinha de perder as aulas. Às vezes, quando ele me levava para fazer corretagem de seguros, as pessoas faziam-lhe sinal para que dissesse que "não estavam" e ele concordava com esse subterfúgio. De modo que eu estava desesperadamente disposto a experimentar qualquer coisa que me assegurasse alguma independência.
   Afinal, um dia, lembro-me bem da data - 5 de novembro de 1927 — meu pai lia para mim numa revista um artigo sabre a maneira como os alemães haviam ensinado cães pastores a servirem de olhos aos cegos. Dizia-se que esses inteligentes e muito ensinados animais atendiam às ordens com uma percepção quase humana e conduziam as pessoas a seu cargo com segurança através do tráfego das cidades, em torno de obstáculos, por escadas acima, para os elevadores. Em resumo, afirmava-se que o cego, com o auxílio desses cães admiráveis, poderia ir a qualquer lugar que entendesse e levar uma vida quase normal. Se isso era verdade, significava que eu e centenas de pessoas como eu poderíamos livrar-nos da prisão da cegueira.

   Depois de meditar naquele artigo de revista provocador de esperanças toda uma noite sem sono, escrevi à autora, Dorothy Harrison Eustis, que vivia perto de Vevey, nos Alpes suíços.
   Depois de um angustioso mês de espera, chegou a resposta. A Sr.ª Eustis escrevia que, na sua propriedade nos Alpes suíços, Fortunate Fields, ela mesma criava cães pastores alemães e os preparava para fazer serviços de polícia e da Cruz-Vermelha.
   Mas, dizia, nunca ensinara cachorros para servirem de guias a cegos. (Quando meu pai leu isso, senti um baque no coração.) Entretanto, se eu realmente me dispusesse a ir até às montanhas da Suíça à procura de um cachorro, ela me descobriria um e me arranjaria um instrutor habilitado.
   Não tive a menor hesitação. Para conseguir independência, eu estaria disposto a ir a qualquer parte.
   As circunstâncias de família eram tais que eu tive de fazer a viagem sozinho. Assim, em abril de 1928, fui à Suíça como se fosse uma encomenda, aos cuidados da Companhia American Express. O fato me aborreceu e contrariou de tal modo que me tornou ainda mais decidido a conquistar a minha liberdade.
   Fui confiado a um camaroteiro que era menos um servidor do que um carcereiro. Todas as manhãs eu ficava preso no meu camarote, cuja porta se fechava pelo lado de fora, até que ele chegava para escoltar-me à primeira refeição. Logo que eu acabava o café, levava-me de novo para o camarote.
   Às 10 horas, ele me trabalhava como se eu fosse um cavalo, fazendo-me trotar metodicamente à volta do convés. Depois, depositava-me numa das cadeiras da coberta. Se algum passageiro amável me convidava para dar uma volta, mal dávamos alguns passos o meu guarda aparecia ofegante, agarrava-me pelo braço e tornava a levar-me para a cadeira, onde podia vigiar-me. Não havia dúvida que a American Express e o comandante daquele navio levavam a sério a responsabilidade que tinham com o cego que ia a bordo!
   Como foi diferente quando saltei do trem para o sol morno e o fresco ar da primavera de Vevey, na Suíça!
   — Aqui estamos, Sr. Frank!
   Foram as primeiras palavras que ouvi. Era a voz gentil da Sr.ª Eustis. Apertou-me calorosamente a mão e apresentou-me aos outros.
   — Estão comigo o nosso diretor de treinamento e genética, Jack Humphrey, a senhora dele e o filhinho do casal, George, que tem quatro anos.
   Enquanto ouvia falar tão cordial criatura, calculei que a Sr.ª Eustis devia ser pequena, com menos de 1,60m de altura, talvez. Em vista da sua maneira de falar, dava-me a impressão de ser delicada, mas firme e uma pessoa que observava padrões de conduta elevados e os exigia dos outros. Era evidente que se tratava de uma pessoa que sabia conseguir o que queria.
    Depois do jantar em Fortunate Fields, Jack Humphrey me disse que a Sr.ª Eustis estava empenhada em criar uma variedade de pastor alemão com elevada capacidade de aprendizagem. Na maioria, estavam sendo treinados para serviço de guarda, polícia ou salvamento, mas um dos melhores exemplares fora escolhido para ser o meu cão-guia. Era uma cadela e fora ensinada pelo próprio Jack, que era quem ia ser meu instrutor. Passara um mês em Potsdam aprendendo a muito especializada técnica do preparo de cães-guias e depois estudara meios de ensinar os cegos a servirem-se deles. Seria eu o seu primeiro aluno.
   Na tarde seguinte, Jack me trouxe a minha cadela, colocando antes na minha mão um pouco de carne moída para que eu começasse a conquistar-lhe a amizade. Ouvi a porta abrir-se e o pisar macio das patas da cadela no chão. Estendi a carne e ela a aceitou com dignidade. Depois, ajoelhei-me e afaguei-lhe o pelo sedoso.
   Como era bela! A Sr.ª Eustis a descrevera como um bonito animal cinza-escuro com uma mancha creme no pescoço. As sensíveis orelhas estavam sempre alerta e os doces olhos castanhos eram brilhantes e cheios de compreensão. Senti um impulso de afeição por ela. Como eu desejava que a minha aparência fosse para ela tão boa quanto a sua, no meu espírito, já o era para mim. Abracei a minha nova amiga e disse-lhe:
   — Vou chamá-la de Buddy.
   Peguei Buddy pela trela e andei com ela para baixo e para cima a tarde toda. Já apegada aos seus treinadores e amiga dos seus companheiros no canil, ela mal me tolerava. Ficou, entretanto, satisfeita naquela noite quando foi levada para dormir ao lado da minha cama no meu quarto quente, em vez de ir para o alojamento dos cães.

   O ar frio que descia das montanhas coroadas de gelo, na manhã seguinte, fez-me ficar aninhado debaixo das cobertas até que, de repente, uma língua quente me lambeu o rosto. Lembrei-me então de que estava na Suíça, no alto do Monte Pelerin, e de que quem estava ali era Buddy. Então tudo o que se passara comigo naquelas últimas semanas não fora um sonho!
   Naquela manhã começou a minha aprendizagem. Coloquei a trela em Buddy, com sua alça rígida de couro em forma de U que iria ser o elo vital que me uniria a ela, e encontrei-me com Jack na porta da casa.
   — Segure a alça com a mão esquerda. O animal ficará sempre à sua esquerda, entre você e o tráfego de pedestres — disse Jack com a sua voz calma. — Levante bem os ombros e ande com passo militar. Agora, dê-lhe a ordem de "Adiante" com bastante clareza. Logo que ela obedecer, recompense-a com um elogio.
   Segurei a trela, com o coração batendo forte e disse com voz um pouco trêmula:
   — Adiante!
   A alça quase me foi arrebatada da mão e nós voamos literalmente até ao portão. Buddy parou diante deste e, por um instante, fiquei cambaleando para trás e para diante, desequilibrado.
   — Ela lhe está mostrando onde está o trinco — disse Jack.
   Pousei a mão na cabeça do animal e desci a mão pelo seu focinho.
   Ela não poderia ter indicado a localização do trinco com mais precisão. Levantei o trinco e saímos.
   — Conserve o braço livre encostado ao corpo, do contrário baterá na ombreira do portão — avisou Jack.
   Seguindo as instruções de Jack, dei as ordens "Direita" e "Adiante" — desta vez com um pouco menos de timidez — e lá nos fomos pela estrada a um passo com que eu não andava havia anos.
   — Endireite os ombros! — ouvi me dizerem.
   Ao mesmo tempo que aprumei o corpo, estufei o peito. Os meus passos se tornaram mais largos e eu ouvi a voz da Sr.ª Eustis dizer:
   — Veja! Ele ergueu a cabeça!
   Não era de admirar! Era uma maravilha estar assim ligado à vida apenas por um animal e uma correia de couro. Estávamos a caminho de Vevey e tínhamos de andar no funicular na encosta da montanha onde ficava Fortunate Fields. Eu percebia perfeitamente as pessoas, as charretes, os cavalos e os carros que passavam na íngreme estrada para a estação. Estava imaginando o movimento e apreciando o ar vivo, quando Buddy parou de repente. Pensei que devia ser a escada para o funicular e deslizei o pé à frente. De fato, havia uma plataforma baixa. Era magnífico!
   — Adiante! Muito bem, Buddy! — exclamei.
   Senti a trela de Buddy puxar-me de leve e subimos.
   Jack sentou-se conosco quando encontramos lugar no bondinho.
   — Ponha a cadela debaixo dos seus joelhos para que ninguém a possa pisar — disse ele.
   Senti o bondinho pôr-se em movimento com uma sacudidela e 20 minutos depois havíamos descido até ao centro da pequena cidade.
   A minha primeira e confusa recordação de Vevey é uma mistura de ordens e de rápida e alegre caminhada, do tropear de cascos de cavalos nas ruas de pedra e de conversas de pedestres.
   Íamos pelo estreito passeio quando senti pela trela que Buddy estava virando para a direita e virei com ela.
   — Ela acaba de desviá-lo de um homem que carregava dois grandes cestos—disse Jack.
   Em dado momento, Buddy agilmente virou para a esquerda e depois voltou à mesma direção em que estávamos indo. Eu não sentira a presença próxima de gente ou de casa e perguntei a Jack:
   — Por que ela fez isso?
   — Levante a mão—foi o que ele me respondeu.
   Levantei a mão e mais ou menos à altura dos olhos encontrei um cano de ferro que fazia parte da estrutura de um toldo. Se não fosse Buddy, eu teria batido com o rosto nele. Isso me pareceu o que de mais espantoso ela já fizera como guia. Se estivesse sozinha, dificilmente teria notado aquela pesada estrutura, tão acima dela. Mas desde que me levava a reboque, os seus olhos haviam medido a altura da mesma com relação ao meu metro e oitenta e três. Não recebera ordens e agira inteiramente sob sua responsabilidade. Ao fazer isso, havia pensado! Os olhos dela eram realmente os meus olhos que viam.
   — Muito bem, Buddy!—disse eu, emocionado.
   Cada fato novo me dava mais sensibilidade para a trela, aumentava a minha capacidade de tranquilizar-me e confiar em Buddy. Durante duas horas, Jack me interpretou constantemente os movimentos do meu animal, recomendando-me que andasse aprumado e não segurasse com muita força a alça da trela. Buddy trabalhava com ar alegre, abanando o rabo como se tivesse prazer em saber tantas coisas mais do que eu.
   Foi tão emocionante que só quando voltei para casa e me estendi numa poltrona compreendi quanto estava exausto. Os pés me doíam, tinha os músculos das pernas doloridos do exercício a que eu não estava habituado, o braço esquerdo me incomodava e sentia dores nas costas de puxar a trela. Mas essas dores se resumiam no melhor estado de espírito em que eu já me sentira havia muitos anos.

   Durante cinco dias fiz excursões pela manhã e à tarde.
   Afinal, Jack disse:
   — Amanhã você ficará por sua conta.
   Eu vou segui-lo, mas não intervirei de modo algum.
   Tremi Intimamente. De excursão para excursão, Jack se tornara mais rigoroso. Não tolerava devaneios. Se eu me deixava empolgar pela satisfação de uma lépida caminhada, ele me fazia voltar à terra com o brusco lembrete de que eu estava em treinamento. Era um excelente instrutor.
   — Não ouvirá mais minhas advertências — disse-me ele. — Se não fizer o que procurei ensinar-lhe, pode acabar com um bom galo na cabeça. Isso, sim, conseguirá romper essa dureza!
   Escutei o que ele dizia, pensando cheio de esperança que ele não teria coragem de deixar que eu me machucasse.
   Quando eu e Buddy aparecemos na manhã seguinte, Jack cuidadosamente passou em revista para mim todas as curvas da estrada para a cidade. Em seguida, pela primeira vez, saímos por nossa conta.
   No portão, em lugar de parar imediatamente quando Buddy parou, dei mais dois passos e bati ruidosamente na ombreira.
   Atrás de mim, Jack deu uma gargalhada e exclamou bem humorado:
   — Eu não lhe disse?
   Abri o trinco, procurando dar a impressão de que apenas roçara pelo poste, e ri também.
   — Adiante e direita! — disse eu, dando a ordem.
   Mas Buddy não se moveu. Jack não disse palavra.
   — Não, quero dizer... Direita e Adiante! — disse eu, corrigindo-me e desconcertado por haver cometido outro erro. Senti a cauda de Buddy abanar e partimos.
   Buddy parou como de costume na escada do funicular, mas eu estava nervoso e mais uma vez deixei de parar prontamente. Dessa vez, tropecei e caí, batendo com força com os joelhos. Mais uma vez Jack se limitou a rir. Sacudindo o pó da roupa, cerrei os dentes e pensei que aquilo era uma maneira bem mesquinha de tratar um cego.
   Enquanto o bondinho nos levava montanha abaixo, o meu ressentimento pela insensibilidade de Jack aumentou.
   "Por que ele se ri assim?" — pensei eu. "Poderia ter evitado que eu caísse."
   Em Vevey, desanimado e zangado, segui Buddy sem interesse pelo passeio. Quando chegamos à nossa primeira esquina eu estava fervendo de raiva. Em lugar de prestar atenção ao barulho do tráfego como Jack me havia ensinado, dei impetuosamente a ordem de "Adiante". Quando íamos atravessando, Buddy parou de repente no meio da rua e recuou precipitadamente, arrastando-me consigo. Senti um carro passar velozmente, tão perto que as suas rodas me jogaram cascalho no rosto. Isso me fez voltar ao meu juízo. Quando chegamos à segurança do outro passeio, dei em Buddy um grande e sincero abraço.
   Na viagem de volta para Fortunate Fields, saí-me melhor. Procedi com mais tranquilidade e segui o meu guia com um passo mais natural. Mas ainda estava aborrecido com Jack.
   Quando chegamos, fui para o meu quarto e me joguei na cama, cheio de ressentimento. Pouco depois, ouvi a porta abrir-se.
   — Escute rapaz... — Era a voz de Jack: — Você pode fazer o que preferir: pode ser apenas um cego como os outros ou ser um homem independente com os olhos de Buddy para ajudá-lo. Você não pode depender de mim. Se eu tiver de segui-lo sempre e dizer-lhe o que deve fazer, você não ficará dependendo do seu animal.
   Não dei resposta.
   — Quando você voltar para os Estados Unidos — continuou Jack — não estarei lá. O seu futuro depende de você.
   Fechara em silêncio a porta antes que eu percebesse que se havia retirado. Senti-me envergonhado. Jack tinha toda a razão.
   Naquela noite fui dormir, sentindo-me sozinho e desanimado. E se afinal de contas eu nunca pudesse aprender a servir-me de um cão-guia? Que papel eu faria se voltasse para a minha casa em Nashville, no Estado de Tennessee, e confessasse a minha derrota? Os outros cegos que eu queria ajudar nem ao menos saberiam que eu fizera a tentativa. Senti-me aniquilado.
   Foi então que Buddy, como se soubesse quanto eu estava deprimido, se levantou do lugar onde estava, ao lado de minha cama; subiu por cima das cobertas para perto de mim, ajeitou o focinho debaixo de minha nuca e se acomodou o mais perto possível, com um rosnar de contentamento e camaradagem.
   A cordial afeição do animal me fez mudar por completo de atitude. Recordando o que havia feito naquela manhã, pensei que afinal de contas não me saíra muito mal. Cometera erros, mas estes me haviam servido de lição. Saíra-me regularmente bem na última parte da excursão.
   Mais importante ainda fora que Buddy me havia mostrado que, se eu fizesse o que me cabia, poderíamos andar juntos sem perigo.
   Descansado, adormeci, sentindo o conforto da proximidade de Buddy.
   Naquela noite concluiu-se uma aliança, o começo de uma vida em comum — um homem e um cão, um homem cujo cão representava para ele a emancipação, um mundo novo e outros mundos para conquistar.

   Os nossos passeios de treinamento se tornaram mais difíceis. Jack traçou itinerários de experiência para Buddy e para mim que nos forçaram a aprender a mover-nos juntos sob quaisquer circunstâncias. Tivemos um dia uma prova inesperada das nossas reações. Quando subíamos o estreito caminho da estação do funicular, invadiu-me os ouvidos um desatinado tropel.
   "Cavalos desembestados!" foi o pensamento que tive enquanto o barulho vinha descendo para onde estávamos. Não sabia absolutamente para que lado me virar para fugir. Mas Buddy sabia! Pulou fora da estrada com tal ímpeto que quase me derrubou. Em seguida, o cabo dos arreios se esticou até que eu tive de estender o braço acima da cabeça para não largá-lo e ela me fez subir aos arrastos a íngreme rampa da beira da estrada. Carregou-me literalmente para o alto da escarpa de dois metros. Paramos ofegantes no alto, tendo saído da frente no momento exato em que passava uma parelha de animais, resfolegando enfurecidos, arrastando um carro ruidosamente e aos solavancos.
   Quando tudo acabou e eu havia afagado e elogiado Buddy, percebi de repente que Jack assistira a tudo. Estando muito atrás de nós para poder socorrer-nos, limitara-se a prender a respiração e a rezar para que pudéssemos escapar. E escapamos, graças a Buddy.
   À medida que as lições prosseguiam a minha capacidade de concentração aumentava, de tal maneira que, quando escutava instruções, nunca tinha de pedir que as repetissem. Dava as minhas ordens com voz alta e clara, endereçadas diretamente à parte posterior da cabeça de Buddy. Tornei-me mais sensível às comunicações de Buddy. Era capaz de dizer até se ela mexia a cabeça para a esquerda ou para a direita.
   Já estava em Fortunate Fields havia algumas semanas quando um belo dia disse à Sr.ª Eustis:
   — Eu gostaria de cortar o cabelo. Acho que vou pedir a Jack para levar-me até ao barbeiro.
   — Leve-se a si mesmo — respondeu ela. — Não tem o seu animal?
   Que desafio! Eu nunca fizera a viagem sozinho. Senti as mãos úmidas de emoção. Pela primeira vez eu me atreveria a sair por iniciativa própria, sem o conhecimento de que Jack estaria sempre por ali se o pior acontecesse.
   — Adiante, Buddy! — exclamei.
   Os meus sentidos pareciam aguçados enquanto ela e eu seguíamos os caminhos já conhecidos. E repetia sem cessar as instruções que me haviam dado para orientar-me. Era como se eu fosse um menino que procura descobrir o caminho através de um labirinto, com a diferença de que aquilo não era brincadeira, mas a sério.
   Eu contava os passos à medida que íamos passando pelas casas de comércio da aldeia. O cacarejar de galinhas me indicava que havia chegado à esquina da casa de aves. Virei para a esquerda. Dentro em breve, o cheiro de pão fresco na padaria me assegurou de que estávamos no caminho certo.
   — Direita, Buddy — disse eu.
   De repente, de mistura com o celestial aroma do tônico para os cabelos, ouvi a voz alegre do barbeiro:
   — Bom dia, Monsieur.
   Eu havia chegado!
   Nunca tive tanto prazer em cortar o cabelo, e Buddy e eu fizemos a viagem de volta para casa como se tivéssemos asas. Por fim, sentei-me na sala de estar, botei a cabeça para trás e ri-me às gargalhadas até que as lágrimas me vieram aos olhos.
   — Que há com você, Morris? — perguntou a Sr.ª Eustis.
   — Minha senhora — disse eu — sou cego desde os 16 anos. Durante anos alguém teve que me levar à barbearia. Ali me deixavam ficar esperando como bagagem esquecida horas e horas de cada vez. Hoje, quando Buddy me levou à barbearia e depois me trouxe de volta, convenci-me pela primeira vez de que vou realmente ser livre. É por isso que estou rindo, porque sou um homem livre!
   Nenhuma pessoa com visão poderá jamais compreender as proporções do meu desafogo. Sentia-me como uma águia presa que se visse solta para voar de novo. Desde a juventude, eu sempre conservara um sorriso no rosto, apenas para constar.

   E então, finalmente, era tempo de eu voltar para casa. Eu não tinha palavras com que agradecer à Sr.ª Eustis e a Jack. Meu coração transbordava. Porque, acima de tudo, eles me haviam restituído a confiança em mim.
   Não era possível haver maior contraste entre a minha viagem de volta no vapor e o que fora a minha viagem de ida. Não era mais um cego levado para aqui e para ali. Era um homem livre, que podia assistir aos concertos, escutar música de dança e participar de reuniões sociais. Buddy e eu andávamos pelo navio todo a todas as horas. Havia noites em que quase não íamos para a cama.
   O nosso primeiro desafio de verdade surgiu quando um dos repórteres que estavam esperando o vapor em Nova York me desafiou a atravessar West Street. Eu nunca ouvira falar dessa rua, do contrário não teria respondido com tanta confiança. Tendo quase 75 metros de largura, essa artéria do cais do porto tem um tráfego intensíssimo. Mas para mim era apenas uma rua como qualquer outra.
   — Mostre-nos onde fica — disse-lhe eu, com segurança—e nós a atravessaremos.
   — É aqui mesmo.
   — Está bem — respondi. — Buddy, adiante!
   Entramos numa rua barulhenta, e foi quase como entrar num muro de som. Buddy deu quatro passos e parou. Um ruído ensurdecedor e uma rajada de ar quente me mostraram que um enorme caminhão estava passando em disparada. Buddy avançou para o barulho atroador, parou, recuou e seguiu de novo. Perdi toda noção de direção e me entreguei inteiramente à cadela. Nunca mais me esquecerei dos três minutos seguintes. Caminhões passavam como flechas, táxis tocavam a buzina em nossos ouvidos, motoristas gritavam para nós. Quando finalmente chegamos ao outro lado e eu percebi que coisa magnífica ela havia feito, curvei-me e dei um grande abraço em Buddy, dizendo-lhe que boa, que ótima cadela que ela era.
   - Claro que ela é ótima! — exclamou uma voz ao meu lado, a de um dos fotógrafos. — Tive de atravessar num táxi e alguns dos outros ainda estão do outro lado!
   Depois disso, a Quinta Avenida, a Broadway e outros labirintos do tráfego de Nova York foram quase fáceis em comparação. Durante a nossa permanência em Nova York, fotógrafos e jornalistas nos acompanhavam constantemente e registravam tudo o que Buddy fazia. Em toda a parte as pessoas falavam com ela e lhe faziam festa. Buddy não se deixava distrair e continuava a fazer o seu trabalho magnificamente e com evidente prazer. Ao fim de uma semana, conquistara a maior cidade do mundo. Era uma celebridade numa cidade que de nada gosta mais do que de celebridades.
   Antes de partir de Nova York, estive numa importante instituição para cegos. O diretor, que também era cego, escutou atenciosamente enquanto eu procurava conseguir o seu apoio para uma organização que forneceria cães-guias.
   — Sr. Frank — disse ele com frieza — creio que já é triste bastante ser cego sem ter que viver amarrado a um cachorro.
   Foi essa a primeira de uma série de encontros decepcionantes em Nova York e depois em outras cidades, com pessoas que trabalhavam profissionalmente na assistência aos cegos. Muitos realizavam uma obra excelente, mas outros representavam apenas a espécie de cego que não pode ou não quer aceitar o desafio de sair em campo e agir por si mesmo. Era evidente que o nosso trabalho só encontraria eco naquela casta especial de homens e mulheres capazes de lutar de verdade a fim de readquirirem a confiança em si mesmas. Perdi as esperanças de ajuda de parte das instituições de caridade. Teríamos de começar desde o início.
   O pequeno hotel em que nos hospedamos em Nova York acolheu Buddy sem reservas e não deparamos com a regra que proíbe a presença de cachorros enquanto não partimos para casa. Quando eu ia embarcando no trem, o chefe-de-trem me segurou o braço e disse:
   — Não pode levar esse cachorro para o trem.
   — Tem razão — disse-lhe eu. - 0 cachorro é que me vai levar para o trem. Adiante, Buddy!
   Buddy entrou imediatamente, procurou-me um lugar e se encolheu embaixo do banco. O chefe-de-trem nos seguiu furioso e estendeu a mão para agarrá-la. Buddy apenas olhou para ele e mostrou-lhe os belos dentes alvos. O homem hesitou, perfurou às pressas a minha passagem e bateu prudentemente em retirada. Era claro que Buddy poderia resolver qualquer situação inteligentemente... com ou sem ordens minhas!
   Quando chegamos a casa, Buddy havia dado provas vitoriosas e amplamente divulgadas das suas proezas em várias cidades do caminho. Exultante, fui passar um telegrama.
   — O endereço é: "Eustis, Monte Pelerin, Suíça" — disse ao funcionário.
   — Muito bem, cavalheiro. Qual é o texto?
   - SUCESSO!
   — Só isso? — perguntou o funcionário, incrédulo. — Apenas uma palavra?
   — Isso diz tudo, amigo! — respondi-lhe.

   A minha família gostou imediatamente de Buddy. Quando ela cumprimentou minha mãe, lambendo-lhe a mão, como se dissesse: "Trago-lhe, senhora, um novo filho, um filho que pode ver de novo", os olhos de mamãe se encheram de lágrimas. Quanto a meu pai, achava que tudo o que a cadela fazia estava certo. Foi um trabalho impedir que ele estragasse Buddy com mimos.
   A vida para mim em Nashville passara a ser bem diferente, porque eu podia ir aonde bem quisesse. Buddy gostava do seu trabalho. Gostava dos arreios. Bastava-me segurá-los para que Buddy pulasse para onde eu estava e se metesse neles por si mesma. Passamos juntos muitas horas felizes, explorando ruas conhecidas, que eu podia visualizar perfeitamente de memória. Nesses passeios, readquiri a minha personalidade. Dantes, se eu saía do passeio a algumas ruas da minha casa, alguém dizia de uma janela para quem passasse:
   — Ajude o rapaz cego a voltar para o passeio.
   Agora eu os ouvia dizerem:
   — Oh! Lá vem Morris com o seu cachorro.
   Morris! De novo eu tinha nome e era uma pessoa em seu direito.
   Com meia dúzia de velhos amigos, que eu conhecia dos tempos de escola, participava de atividades normais.
   Os estranhos falavam também comigo sem constrangimento. Muitas vezes invejara a facilidade com que os videntes puxavam conversa nas paradas de ônibus e em outros pontos fortuitos de reunião. Era raro dirigirem-se a mim porque não sabiam como chamar a minha atenção. Entretanto, depois da minha volta, era a coisa mais natural do mundo dizerem: "Que lindo cachorro o seu!" — e assim se iniciava a conversa.
   O meu negócio de corretagem de seguros prosperou porque eu não tinha mais dificuldade em falar com os clientes em perspectiva. Não faziam sinais secretos para o meu guia a fim de evitar a minha visita. Ao contrário, recebiam-me bem, ansiosos por fazer perguntas a respeito de Buddy e vê-la em ação. Quando iam dizer a um vice-presidente que o Sr. Frank e o seu cachorro estavam ali, a resposta era muito cordial:
   — Mande-os entrar. Vá entrando, Morris!
   Entretanto, desde o princípio se tornou evidente que havia necessidade de uma longa campanha para derrubar a proibição da entrada de cachorros, afixada em cartazes em tantos lugares públicos. O primeiro conflito se verificou no escritório da minha companhia de seguros, no edifício do banco local. O advogado do banco ficou tão preocupado de ver um cachorro andando nos elevadores que falou a esse respeito com o presidente, Sr. James Caldwell.
   O Sr. Caldwell chamou ao seu escritório o advogado e a mim.
   — Percy — disse ele ao advogado — você tem três filhos, mas não sabe o que pode acontecer. Algum deles pode tornar-se inválido. Este rapaz, outrora inutilizado, achou agora um meio de andar para cima e para baixo de acordo com as suas necessidades, sem depender dos outros. Nem você nem eu temos o direito de impedi-lo.
   O advogado começou a protestar e o Sr. Caldwell perdeu a paciência.
   — Pouco me interessa o que diga a lei. Pelo amor de Deus, não ponha obstáculos diante de gente que procura resolver os seus problemas com coragem e dignidade!

   Quando artigos sobre Buddy publicados em jornais e revistas começaram a se espalhar pelos Estados Unidos, muitos companheiros cegos começaram a escrever-me. Uma carta comovente me chegou às mãos, de um eclesiástico que perdera a vista três anos antes em consequência de um ataque de malária. Escrevia ele: "Sei ler Braille e escrever à máquina, mas não posso visitar os meus fiéis. Minha esposa, que a princípio me guiava para fazer as visitas, encontra-se inválida. Assim, estou impossibilitado de fazer o meu trabalho. Se eu tivesse um cão para guiar-me pela minha paróquia, poderia dominar essa deficiência. Quando soube do seu caso, fiquei pensando que talvez houvesse alguma possibilidade para mim de conseguir auxílio."
   Que coragem! Ali estava exatamente uma das pessoas de coração forte que eu estava ansioso por ajudar!
   Dentro em breve em minha mesa havia uma pilha de apelos igualmente urgentes e eu sentia que era chegada a ocasião de fundar uma escola para preparar cães-guias para americanos cegos. A Sr.ª Eustis concordou. Fortunate Fields tinha já prontos dois cães-guias ensinados e Jack havia preparado alguns treinadores que prometiam, entre eles uma moça de 20 anos, Adelaide Clifford, que revelava disposição invulgar para esse trabalho. A Sr.ª Eustis era de opinião que eu podia sem perigo marcar o início das aulas para fevereiro. "Jack chegará aí dentro em breve e eu o seguirei o mais depressa possível."
   Numa fria manhã de janeiro, quando eu saía de casa para ir trabalhar, Buddy sem motivo aparente estacou de súbito. Apurei os ouvidos para descobrir porque. Ouvi então passos que me eram conhecidos e notei que a cabeça de Buddy estava levantada de uma maneira atenta que na Suíça sempre havia significado "Jack".
   — Jack! — exclamei. — Não pode ser senão você!
   Ouvi o riso cordial de Jack e ele se aproximou para apertar-me a mão. Mas as suas primeiras palavras foram para Buddy. Afagou-a afetuosamente:
   — Parabéns, menina! Você nos trouxe até aqui!
   Em seguida, me disse:
   — Agora, Morris, está na hora de entrar em ação.
   Depois disso, as coisas se desenrolaram com rapidez. Abrimos um pequeno escritório, alugamos um prédio velho para instalar o canil, estabelecemos o horário das aulas e arranjamos alojamentos para os estudantes. A notável Senhorita Clifford chegou da Suíça e se encarregou de mil e um detalhes que sem ela nos teriam assoberbado. E o "Tio Willi" Ebeling, que criava cães pastores alemães, ficou tão interessado pelo nosso projeto que foi trabalhar conosco e se tornou dentro em pouco uma figura indispensável.
   Pouco depois, a Sr.ª Eustis chegava e no fim de janeiro de 1929 fundávamos a "Olho Que Vê", uma empresa sem objetivo de lucro, com a Sr.ª Eustis como presidente e eu como diretor-gerente. Três amigos se comprometeram a contribuir com 2.500 dólares cada um por ano, embora a Sr.ª Eustis se oferecesse prazerosamente para pagar pessoalmente todas as nossas despesas. Afinal, um ano e três meses depois de eu haver deparado com o seu abençoado artigo, abrimos as portas da nossa escola.
   A nossa primeira turma, que constava de dois médicos, esgotou todos os nossos recursos em matéria de cães completamente treinados — os dois que Jack trouxera da Suíça. Mas outros que havíamos adquirido estavam sendo treinados e, para a nossa segunda turma, um mês depois, tivemos cinco animais em condições. Cada cão-guia recebia três meses de treinamento intensivo, e sua inteligência e compreensão eram experimentadas por completo antes de lhes ser finalmente confiada a responsabilidade de se tornarem os olhos de um cego. Para o exame final, Jack ou Tio Willi colocavam uma venda nos olhos e exigiam que o cão os levasse através de passagens sob arcos, em torno de caixas do correio, acostumando-o a usar portas giratórias e metendo-o em todas as espécies de tráfego intenso.
   O período de treinamento para os cegos era de quatro semanas e, claro, igualmente intenso. Mas dava imensas satisfações. Os alunos chegavam hesitantes e tímidos, arrastando os pés e andando às apalpadelas. Ao saírem pelas nossas portas marchavam com passo vivo, de cabeça erguida, como seres humanos renascidos. Custava a acreditar que eram cegos.
   A diferença que isso representava na vida deles tornava a leitura da correspondência dos que haviam concluído o curso conosco um prazer e um estímulo. Poucos meses depois de abrirmos a escola, recebemos outra carta do eclesiástico que já nos escrevera antes sobre os seus problemas. Tendo feito parte da nossa turma de março, escrevia-nos mandando lembranças de Dot, a bela cadela de raça pastor alemão que ele há muito estimava.
   "Tenho certeza de que é graças a Dot", escrevia ele, "que o número de fiéis da nossa igreja tem aumentado sem cessar. Ela é a minha querida companheira nas visitas que faço aos meus paroquianos. É tão entusiástica, tão cheia de vida que pela sua vontade faríamos visitas o tempo todo. Tenho de contê-la constantemente, porque agora que encontrei os meus olhos, não quero de modo algum cansá-los!"

   Ao fim do terceiro ano, a nossa escola dera nova esperança a 50 homens e mulheres e nenhum dos nossos alunos sofrera jamais um acidente grave. A Sr.ª Eustis encontrara uma propriedade de 23 hectares idealmente localizada perto de Morristown, no Estado de Nova Jersey, que ela comprou e deu ao Olho Que Vê. A grande casa e as outras construções da propriedade proporcionavam espaço para os escritórios, para os alojamentos dos estudantes e para os canis. O nosso pessoal foi aumentando e nós sentimos que podíamos expandir-nos para dar ajuda a mais candidatos das várias centenas que estavam impacientemente à espera, de vaga.
   Os principais obstáculos eram a dificuldade de encontrar cães em condições, a dificuldade ainda maior de obter bons instrutores e o problema perene do dinheiro. Nesta última parte, Buddy nos prestou serviços inestimáveis. Era uma coletora de dinheiro inata.
   Gente de toda a América já tinha ouvido falar no Olho Que Vê e o nosso trabalho parecia fascinar a todos. Recebíamos inúmeros pedidos para que alguém fosse falar a esse respeito, muitas vezes com propostas substanciais de pagamento. Mas o que a maioria dos auditórios queria realmente era ver Buddy, a verdadeira estrela da nossa empresa, em ação. Diante disso, a Sr.ª Eustis decidiu que eu devia tornar-me conferencista.
   Em nossas excursões, todos os dias Buddy me ensinava alguma coisa ou me revelava um pouco a seu respeito. Demonstrava especial simpatia pelas pessoas que tinham algum defeito. Se um cego ou alguém que usava muletas estava sentado na ponta da fila de cadeiras quando passávamos rumo ao estrado de conferências, ela parava e lhes fazia amistosas festas. Na rua, ela me puxava vários passos fora do nosso caminho para fazer festa a um inválido numa cadeira de rodas ou para aproximar cordialmente o focinho de um mendigo aleijado.
   Mostrava também ternura para com os animais. Numa viagem de trem, Buddy teve de ir no vagão de carga. Eu fiquei preocupado e a primeira coisa que fiz quando amanheceu foi ir saber se ela estava bem.
   — Não precisava ter-se preocupado — disse o encarregado do vagão. — Ela teve companhia. Um desesperado filhote de buldogue que fazia a sua primeira viagem gania e tremia de cortar o coração. Vi logo que Buddy não ia deixar que essa situação continuasse. Ela estendeu as patas, puxou o animalzinho para si e tratou-o com carinho maternal. O cachorrinho satisfeito dormiu entre as patas dela a noite toda. Os dois se entenderam às mil maravilhas!

   Não se podia ter um companheiro de viagem melhor do que Buddy. Mostrava a sua inteligência em toda a espécie de situações. Uma vez, quando desembarcamos do trem em Nova York e começamos a acompanhar um carregador na Estação Pensilvânia, Buddy parou de repente e não quis ir mais adiante.
   — Ela está olhando para as malas, cavalheiro — disse o carregador. — Está olhando para elas de um jeito bem esquisito.
   Buddy nos levou de volta ao nosso vagão. Encontramos lá o chefe-de-trem procurando acalmar um passageiro indignado que jurava que alguém levara a mala dele. Trocamos as maletas e todos ficaram satisfeitos, especialmente Buddy. Não cessava de saltar para um lado e para outro, abanando a cauda vigorosamente e aceitando os elogios que lhe eram profusamente feitos, como se soubesse quanto os merecia.
   Buddy era muito entendida em hotéis e podia arranjar-se muito bem sozinha em estabelecimentos que não conhecia. Certa vez, em Atlantic City, pedi a um empregado que a levasse para fora a fim de fazer exercício. Em vez disso, ele procurou divertir os amigos, fazendo-a exibir-se. Buddy, logo aborrecida com as corridas para apanhar coisas sem objetivo e outras ordens absurdas, fez a coleira escorregar pela cabeça e fugiu.
   Quase doente de preocupação, o empregado subiu ao meu quarto para me confessar o que havia acontecido. Nunca ouvi tanto alívio na voz de uma pessoa como quando ele viu Buddy deitada no canto. Ela já estava em casa havia cerca de 45 minutos, tendo ido diretamente para o hotel e embarcando no elevador. O ascensorista, que já a conhecia, deixou-a saltar no quinto andar, e, poucos segundos depois, ela estava arranhando a nossa porta.
   Não havia dificuldade que a fizesse falhar no seu julgamento. Numa noite quente de verão, quando fiz escala em Nashville, a caminho de um lugar onde tinha um compromisso para falar, minha mãe me botou para dormir num quarto do primeiro andar. Acordei no meio da noite com a estranha impressão de que Buddy não estava no lugar de costume, ao meu lado. Quando readquiri plena consciência das coisas, ouvi um barulho alarmante — estavam cortando com todo o cuidado a tela da janela. Ouvi então um grito penetrante de terror, seguido de ruído de pés correndo.
   Depois Buddy voltou calmamente para a cama. Ouvira decerto o ladrão antes de mim e se encaminhara sem fazer barulho para a janela. Quando o homem cortara a tela e estendera a mão para o ferrolho, encontrara em lugar disso um jogo de dentes afiados e resolutos.
   Buddy poderia ter resolvido a situação de outra maneira. Teria provavelmente afugentado o intruso mais depressa se latisse. Mas a estratégia do tratamento silencioso que ela adotara juntava à surpresa um elemento de terror.

   Aonde quer que Buddy e eu fôssemos procurávamos sempre as pessoas que na localidade haviam feito o curso do Olho Que Vê. Conhecia bem a todos. Fazia parte do meu trabalho de viajante conversar com os candidatos e selecioná-los e a muitos havia visitado antes de irem para Morristown. Quase sem exceção, era emocionante observar a transformação. O equilíbrio e a confiança em si que eles haviam adquirido confirmavam o acerto da solução do Olho Que Vê para o problema da cegueira.
   Suspeitando que alguns grupos exploravam os cegos que faziam o nosso curso e os seus cães a fim de fazerem propaganda da sua "generosidade", resolvemos desde logo que todas as contribuições tinham de ser feitas diretamente ao Olho Que Vê e que não poderiam ser atribuídas a pessoa alguma. Decidimos ainda que cada estudante, para estimular-lhe o orgulho e a confiança, deveria pagar o seu cão. Estabelecemos o preço de 150 dólares e concedemos ao estudante um prazo até de anos, caso fosse necessário, para saldar o seu débito. O que queríamos era que êle não se sentisse devedor de ninguém, nem de nós mesmos, pelo que possuía de mais precioso.
   Uma jovem mãe, Mary, de Milwaukee, foi apenas uma das pessoas que concluíram o nosso curso e nos mostraram que a nossa decisão estava absolutamente certa. Apesar da sua cegueira, ela trabalhava numa fábrica. Levantava-se bem cedo todos os dias para preparar o almoço para si, o seu filho e o cão antes de sair para o trabalho. Colocava o filho no seu carrinho de duas rodas e, segurando a trela do cão-guia com a mão esquerda, empurrava a criança com a direita. Andava perto de meio quilômetro até chegar à parada do ônibus.
   Tomar o ônibus era uma verdadeira façanha. Era preciso fechar o carrinho, pendurá-lo no braço direito, carregar o filho com segurança no mesmo braço, segurar com firmeza a trela do cão com a mão esquerda e mostrar o seu passe ao mesmo tempo.
   Deixava a criança numa creche para passar o dia e caminhava cerca de quilômetro e meio até ao trabalho. O programa da tarde era o mesmo às avessas — primeiro a creche, e depois, para casa, a fim de fazer o jantar, dar de comer à criança, arrumar a casa, lavar a roupa e preparar-se para o dia seguinte.
   — Mary — disse-lhe eu — você bem sabe que há fundos públicos à disposição de mães e filhos em casos como o seu. Por que não requer um auxílio?
   — Quando procurei Olho Que Vê e ganhei Sara — disse ela — paguei-a com o dinheiro que havia ganho. Foi a primeira coisa que consegui com o meu trabalho. Isso me deu um sentimento de dignidade. Não vou sacrificar tal sentimento apenas porque as coisas não me correm muito bem neste momento. Tenho Sara... e não preciso de caridade.
   Outra estudante de quem nos orgulhamos foi Anne. Quando lhe fiz uma visita, ela já possuía Lady havia três anos e estava imensamente reconhecida a ela e a nós. Todos tinham sido sempre bons para ela, mas Anne se sentia profundamente ofendida quando se referiam a ela como "a cega" e pareciam pensar que ela era surda e débil mental.
   Graças a Lady, Anne conseguiu fazer um curso de datilografia e arranjar um emprego, no qual se saiu muito bem. No primeiro Natal que passou empregada teve o prazer de fazer compras sozinha e adquiriu para a família os melhores presentes ao seu alcance. Mas o melhor presente foi para Lady.
   Depois de eu a ter visitado, Anne me escreveu: "Um rapaz que trabalha em meu escritório, vidente, me pediu em casamento. Quando lhe perguntei por que queria casar-se comigo, uma cega, êle disse: 'Que diferença existe entre você e qualquer outra pessoa? Você pode ir a toda parte e fazer tudo. Além disso, eu quero Lady e a única maneira de consegui-la é ficar com ambas!' E assim estou casada como qualquer outra moça e iniciando uma nova etapa da minha vida."

   Em minhas excursões ouvi muitas histórias dramáticas do heroísmo de cães do Olho Que Vê. Uma delas foi o caso de um homem de Arkansas que escorregou e caiu quando atravessava um cruzamento coberto de gelo. Um carro vinha em sua direção, com os freios inúteis no chão coberto de gelo. Sendo cego, o homem nada percebeu do perigo que corria. Mas o seu cão, Jerry, viu num instante a terrível situação e arrastou-o pela trela até tirá-lo da passagem do automóvel.
   Uma moça de Washington estava passeando quando de repente a sua cadela, Jane, que estava com os arreios, se levantou nas patas traseiras, virou-se e a jogou no chão.
   Alguns trabalhadores foram em seu socorro e contaram-lhe o que havia acontecido. Um guindaste estava sendo transportado pela rua e um dos cabos cedera, soltando um gigantesco gancho de ferro. A moça estava bem na trajetória do arco mortífero descrito pelo gancho. Se não fosse o fulminante raciocínio e a ação da sua cadela, o passeio da moça teria terminado tragicamente.

   Nos intervalos das minhas excursões, eu conseguia sempre voltar a Morristown e ali passar ao menos alguns dias todos os meses. Buddy, a veterana, gostava de ficar à janela e observar os cães da turma em preparo serem treinados. Prestava tal atenção a tudo que eu quase esperava que ela me fizesse um relatório minucioso sobre os alunos, dizendo: "Aquela loura, Suzie, não está seguindo corretamente o seu dono". Ou então: "Tom II se comportou muito bem hoje com a correia comprida”.
   Desdenhava a companhia de tais neófitos. Se saíamos para a rua num grupo de estudantes cegos com os seus cães, ela ou diminuía o passo e me fazia ficar muito para trás ou andava mais depressa até haver passado todos os outros. Não queria ser confundida com outro cão-guia qualquer. Ela era Buddy, a primeira e maior de todas!
   Íamos muitas vezes passar o fim-de-semana na hospitaleira e próxima granja do Tio Willi Ebeling, o criador de cães que se dedicara ao Olho Que Vê desde o seu início. Buddy adorava essas ocasiões. Havia um lago para nadar, um canteiro de flores que era um lugar magnífico para enterrar ossos — os cães sempre tinham primazia sobre as rosas em casa de Ebeling — e o nosso quarto com uma grande cama em que cabíamos ambos confortavelmente.
   Numa das visitas que ali fizemos, Buddy deu outra prova clara de que era um ser pensante. Estavam fazendo uma nova escada para o segundo andar. Os degraus já estavam prontos, mas ainda não havia sido colocado o corrimão.
   Buddy não tinha de me prestar serviço algum quando não estava na trela. Tinha liberdade de correr e brincar, esquecendo-se dos seus deveres. Mas na primeira vez que comecei a subir a escada por completar, ela correu para junto de mim. Viu que faltava a barreira protetora e tratou de proteger-me. Subiu comigo degrau por degrau, conservando-se entre mim e a extremidade aberta dos degraus. Naquele fim-de-semana pouco foi o tempo que ela passou fora de casa. Durante todo o tempo da nossa permanência, ela nunca me perdeu de vista, correndo para escoltar-me sempre que eu subia ou descia a escada.
   Em outra ocasião, na granja de Ebeling, o auxílio de Buddy foi mais necessário. Eu havia começado a nadar para uma jangada de troncos ancorada no meio do lago. Não dei com ela e, quando nadava em círculos procurando-a, perdi toda a noção de orientação. Por fim percebi, com um pouco de medo, que estava quase exausto. Como de costume, quando precisava de auxílio, pensei em Buddy. Chamei-a, com a esperança de que ela não estivesse fora do alcance da minha voz. Ela respondeu com um latido que foi o mais agradável que já me chegara aos ouvidos, caiu na água com um baque ruidoso e dentro em pouco estava ao meu lado.
   Estendi a mão para a coleira dela e antes que eu pudesse elogiá-la ela me levara de volta á margem e à segurança.
   Tão inestimável proteção exige afeto em retribuição e não pode ser conquistada sem êle. Jack sempre insistia nesse ponto quando falava aos estudantes e constantemente os exortava:
   — Elogiem o seu cão! Recompensem o seu cão!

   A campanha para tornar o cão-guia aceito nos lugares públicos não triunfou com facilidade. Mas a Sr.ª Eustis e Buddy se revelaram contendores notáveis naquela incessante batalha.
   A Sr.ª Eustis traçou uma brilhante estratégia para conseguir autorização incondicional para os nossos cães viajarem nos vagões de passageiros dos trens. Ao fim de meses de manobras, consegui que estivéssemos presentes a um jantar a que compareceria — por pura coincidência — o General Atterbury, Presidente da Estrada de Ferro da Pensilvânia.
   Depois do jantar, o general estava afagando Buddy, que correra para êle na ocasião em que se servia o café, e a Sr.ª Eustis se aproximou.
   — Sabia, general — disse ela — que esses maravilhosos cães têm de ficar ao lado dos seus donos todo o tempo, a fim de lhes darem plena assistência ?
   Ora, "a Chefe", como a chamávamos, era uma mulher extremamente capaz, com uma força de vontade temível e um espírito de aço. Mas em certas ocasiões sabia arregalar os grandes olhos castanhos e parecer um resumo de indefesa feminilidade. Quando ela expunha os seus problemas a um grande e poderoso homem de negócios, havia poucos que deixavam passar a oportunidade de fazer desaparecer esses pequenos problemas.
   — É horrível o que passamos — continuou a inocente Sr.ª Eustis — quando as estradas de ferro despacham os nossos cachorros nos vagões de carga.
   Buddy, toda cooperação, levantou a cabeça ao ouvir as odiadas palavras "vagões de carga" e rosnou gravemente.
   — Já não sei o que fazer para conseguir que os funcionários das estradas de ferro cooperem, deixando que esses companheiros indispensáveis e bem comportados dos cegos viajem como passageiros e não como bagagem — concluiu a Chefe. - 0 senhor pode ajudar-nos?
   Cinco dias depois, ela me telefonou para dar a boa notícia.
   — Morris, pode entrar agora na Estrada de Ferro da Pensilvânia com Buddy como um homem, não um contrabandista!
   O General Atterbury havia baixado uma ordem que autorizava os cães do Olho Que Vê a viajarem por toda a rede da Estrada de Ferro da Pensilvânia. Foi essa a primeira estrada que oficialmente deu "passagem livre" aos nossos guias.
   Depois que a Pensilvânia nos deu permissão, as outras estradas de ferro foram sucessivamente sendo franqueadas aos nossos cães. Dessa maneira, em 1935, um dos nossos maiores objetivos fora já alcançado. Graças principalmente a Buddy, o cego independente podia daí por diante viajar livremente para qualquer parte dos Estados Unidos a que pudessem levá-lo uma locomotiva e dois trilhos de aço.
   Para fazer avançar o nosso trabalho, a Sr.ª Eustis conseguiu que eu e Buddy passássemos vários fins-de-semana com ela em casa de amigos seus, ricos e socialmente proeminentes. O dono da casa convidava um grupo para ver o nosso filme e ouvir a história do Olho Que Vê. Eu e Buddy éramos a prova principal — o produto acabado da nossa organização — e era importante causarmos boa impressão, desde que aquela gente podia ajudar-nos financeiramente, dar empregos para os nossos cegos nas fábricas e inestimável ajuda para abrir os bondes, os ônibus e os hotéis aos nossos cães-guias.
   Não tínhamos de preocupar-nos com Buddy. Nessas altas esferas sociais, ela procedia sempre com o maior decoro. Até os seus furtos eram perpetrados com imensa dignidade.
   Certa vez num chá elegante, entre um murmúrio de conversas corteses, o mordomo servia sanduíches numa mesinha de rodas. Quando esta passou por mim a bandeja inferior da mesinha estava bem à altura do focinho de Buddy. Embora ela não movesse a cabeça nem piscasse um olho, uma pilha de sanduíches desapareceu em menos tempo do que se gasta em contar o fato. Apenas uma pessoa, a Sr.ª Eustis, que por acaso estava olhando para Buddy, viu o furto. Foi, disse a Sr.ª Eustis, como se uma grande dama, num momento em que se julgava despercebida, sem ao menos baixar o lorgnon, estendesse sub-repticiamente o pé bem calçado e puxasse para debaixo da saia uma carteira caída no chão.
   Durante uma das nossas estadas em Detroit recebemos um gentil bilhete de Henry Ford, que dizia: "Tenho ouvido falar muito de Buddy. Gostaria de conhecê-la".
   O grande industrial nos recebeu cordialmente, apertando a pata de Buddy e assistindo à nossa demonstração com genuíno interesse. Buddy assumiu uma pose apropriada ao gabinete de um diretor. Sentou-se ereta, com as costas aprumadas como um soldado prussiano, a bela cabeça erguida e atenta.
   O Sr. Ford disse, rindo: — Parece exatamente um dos meus vice-presidentes.
   Buddy se impressionou muito com o escritor Booth Tarkington. Muitas vêzes na sua casa flutuante, no Maine, ela corria, pousava a cabeça nos joelhos dêle e olhava-o como se perguntasse: "E você o grande escritor que tem dado tanto prazer a tanta gente?" E então, enquanto êle tomava chá e não estava olhando, ela mordiscava o biscoito doce que ele tinha na mão.
   Numa tarde de outono, estava eu sentado em frente à confortável lareira na casa do Sr. Tarkington, quando deixei cair uma caixa de fósforos. Buddy se levantou de onde estava dormitando, foi até junto de mim, apanhou a caixa e devolveu-a. Quando a afaguei e lhe agradeci, o dono da casa disse:
   — Sei que parece absurdo, mas alguma coisa na maneira pela qual Buddy o olhou quando lhe entregou os fósforos me fez pensar que ela sabe que o seu dono é cego.
   A ideia o espantou como espanta muita gente. Mas nós, do Olho Que Vê, estamos de há muito convencidos de que isso é verdade.

   Quando Buddy e eu estávamos juntos havia cerca de cinco anos, apareceu-lhe uma excrescência embaixo do estômago. Não quis confiar apenas na opinião de um veterinário e fiquei tranquilizado quando um grande hospital para gente concordou em interná-la. Ali alguns dos melhores especialistas a examinaram e chegaram à conclusão de que a excrescência era cancerosa.
   Um famoso cirurgião a operou para remover o tumor. Aguardei a saída de Buddy da sala de operações com uma apreensão quase insuportável. Mas tudo correu bem e em casa dos meus pais, onde nunca um convalescente humano foi objeto de cuidados mais dedicados, ela se restabeleceu rapidamente. Ainda mais, mostrava um certo orgulho do que lhe acontecera, pois quando chegava alguém, deitava-se, virava de costas e mostrava a cicatriz.
   Durante os dois anos seguintes, Buddy continuou na sua vida plena e útil. Passávamos todos os nossos momentos de vigília procurando difundir o Olho Que Vê de um canto a outro dos Estados Unidos. Mas no terceiro ano ela começou a fraquejar. E no ano seguinte, embora o seu zelo pelo trabalho permanecesse inabalável, êle estava muitas vêzes acima das suas forças. Tinha ela então 12 anos de idade e estava encontrando dificuldade em movimentar-se, respirando mais pesadamente e tendo de descansar com frequência. Uma noite em Chicago, onde tínhamos uma conferência marcada, ficou claro que o fim se aproximava.
   Embora estivesse doente e cansada, quando chegou a hora de comparecer perante a assistência, ela se aprumou, guiou-me até ao estrado e latiu nos momentos oportunos e em outros que não o eram tanto. Depois disso, ficou de pé muito quieta para que os seus admiradores pudessem fazer-lhe festas. Mas quando todos haviam saído da sala de conferências, aquela artista nata caiu encolhida sobre as patas dianteiras, cansada, velha, esgotada. Nessa noite não pôde subir à cama e eu dormi no chão com ela.
   Buddy teve mais um triunfo público. Embora já houvéssemos viajado muitas vêzes nos aparelhos das linhas aéreas, tínhamos sempre de conseguir previamente uma autorização especial. Antes de partirmos de Chicago, a companhia United Airlines anunciou uma mudança de critério: dali por diante os cegos teriam permissão tácita de levar os seus cães-guias para bordo dos aviões da empresa. Isso significava que Buddy havia completado a sua missão.
   A viagem foi feita com aparato apropriado. A United Airlines informou aos jornais e às agências telegráficas que um cão do Olho Que Vê ia fazer a sua primeira viagem oficial e regular de avião. Quando descemos para fazer escala em Cleveland, repórteres e fotógrafos tinham ido esperar o avião e queriam fotografias.
   Buddy não revelou o seu mal quando desceu a prancha porque se inclinava para a frente nos arreios e eu a sustentava. Eu não queria que se soubesse que ela estava chegando ao fim da jornada. Quando chegou o momento de voltarmos aos nossos lugares, atrasei-me, esperando que os jornalistas se retirassem, porque sabia que Buddy não poderia com as próprias forças subir a íngreme prancha. Eu teria de carregá-la e não queria ferir o seu sentimento de dignidade.
   Demorei-me o mais possível. Afinal, um dos fotógrafos disse:
   — Se isso não o incomoda, eu gostaria de bater uma fotografia dela levando-o de volta ao avião.
   Fora derrotado. Tive de confessar que Buddy estava velha e doente e teria de ser ajudada para subir a prancha. Vários jornalistas acorreram imediatamente e gentilmente me ajudaram a carregá-la para bordo. Embora uma fotografia desse momento pudesse ter dado mérito a alguém por um flagrante de sensacional "interesse humano", não houve um só daqueles fotógrafos calejados que batesse um instantâneo de Buddy na sua hora de dificuldade.
   Naquela noite fomos jantar tranquilamente com os Ebelings na sua granja. Buddy, habitualmente tão cheia de vitalidade, deixou-se cair literalmente no chão da sala de estar quando chegamos.
   Parecia dizer:
   "Trouxe-o são e salvo para casa. Terminei a minha jornada. Estou acabada".
   Ali ficou ela toda a noite sem se mover.
   Levamos-lhe comida. Ela pareceu satisfeita com isso e reagiu debilmente. Podíamos todos ver que ela estava cansada, muito cansada.
   Quando voltamos ao nosso apartamento em Morristown, ela se mostrou satisfeita em estar em casa e se estendeu na cama que havíamos feito para ela desde que se lhe tornara tão difícil subir para a minha.
   Tudo fizemos para aliviá-la. O nosso veterinário a tratava com diatermia e raios ultravioleta pela manhã e à tarde. Não podia resignar-me a deixá-la sozinha e cedi à sua insistência em acompanhar-me ao escritório. Eu estava realmente preocupado demais para poder trabalhar, mas a cama de Buddy feita no escritório foi uma mudança de ambiente para ela. Buddy costumava deitar-se ali e olhar pela divisão de vidro observando tudo o que se passava.
   Na manhã do último dia, ela me guiou do apartamento até ao automóvel. Tive de sustentá-la com a trela, porque ela estava fraca demais para ficar de pé sozinha. No escritório, queria ficar perto de mim o tempo todo. Em vista disso, levei-a para a sua cama e sentei-me ao lado dela, alisando-lhe a bela cabeça.
   Ali, no sol que entrava em cheio por uma janela, a valente criatura tremia de frio. Cobrimo-la com uma manta e eu a afaguei. Ela estendeu a cabeça, lambeu-me afetuosamente o rosto banhado em lágrimas, depois deixou-se cair, mergulhando num sono bem merecido.
   A sua morte deu motivo a mais de 3.400 cartas e telegramas de pesar de todos os cantos do mundo.
   Naquela época — em 1938 - 50 cães já estavam guiando cegos e cegas em todas as circunstâncias, nas cidades e nas vilas, nas fazendas e nas fábricas, em toda a extensão dos Estados Unidos. Hoje há perto de 3.000 cães-guias, e os seus donos, que representam quase 100 profissões, têm vindo buscá-los do Havaí, do Alasca, de Porto Rico e do Canadá. Estou convencido de que foi Buddy, minha querida companheira, a verdadeira pioneira que tornou possível esse grande serviço aos cegos.





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