sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

TABULETA DO DILÚVIO

Tabuleta de argila para escrever, de Nínive (perto de Mossul),                                         norte do Iraque

                                                                    700-600 A.C.

     A história bíblica de Noé, sua arca e o Dilúvio está de tal maneira integrada à nossa linguagem que qualquer criança sabe dizer que os animais entraram aos pares. Mas a história do Dilúvio é bem anterior à Bíblia, e comum a muitas outras sociedades. Isso leva a uma grande indagação: temos conhecimento do Dilúvio porque alguém há muito tempo, registrou a história por escrito — mas quando surgiu a ideia inicial de registrar uma história por escrito?


     Moradores de Bloomsbury têm o hábito de dar uma passada no British Museum. Pouco mais de 140 anos atrás, um deles, um homem chamado George Smith, costumava visitá-lo no horário do almoço. Aprendiz de uma gráfica não muito distante, ele ficou fascinado com a coleção de tabuletas de argila da antiga Mesopotâmia. Mergulhou tanto no assunto que aprendeu a ler a escrita cuneiforme das tabuletas e com o passar do tempo tornou-se um dos maiores especialistas em escrita cuneiforme de sua época. Em 1872, Smith estudou uma tabuleta de Nínive (hoje no Iraque), e é ela que quero examinar agora.
     A biblioteca onde mantemos as tabuletas de argila da Mesopotâmia — existem cerca de 130 mil — é uma sala repleta de prateleiras do chão ao teto, com uma estreita bandeja de madeira em cada prateleira contendo até doze tabuletas, a maioria em fragmentos. O pedaço que chamou a atenção de George Smith em 1872 tem aproximadamente quinze centímetros de altura, é feito de argila marrom-escura e está coberto por um texto denso e organizado em duas colunas apertadas. De longe, lembra um pouco pequenos anúncios de um jornal antigo. Originalmente deve ter sido retangular, mas ao longo do tempo partes se desprenderam. Quando George Smith compreendeu o que este fragmento significava, descobriu que abalaria os alicerces de uma das grandes histórias do Antigo Testamento, levantando importantes dúvidas sobre o papel da escritura e sua relação com a verdade.
     Nossa tabuleta é sobre um dilúvio — sobre um homem que recebe uma ordem de seu deus para construir um barco e carregá-lo com sua família e animais, pois uma inundação está prestes a liquidar a humanidade da face da Terra. A história gravada na tabuleta era fantasticamente familiar para George Smith, porque, enquanto lia e decifrava, ficava claro que o que ele tinha diante de si era um mito antigo que correspondia à história de Noé e sua arca e — o mais importante — era anterior a ela. Apenas para lembrar, eis aqui alguns fragmentos da história de Noé contada pela Bíblia (Gênesis, 6:14-7:4):

Faze para ti uma arca (...) e de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca (...) farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.
E aqui vai um pequeno extrato do que George Smith leu na tabuleta de argila:

Demole a casa e constrói um barco! Abandona a riqueza e busca sobreviver. Despreza a propriedade, salva a vida. Leva para dentro a semente de todas as coisas vivas! O barco que construirás, suas dimensões devem ser todas iguais: o comprimento e a largura devem ser os mesmos. Cobre-o com um teto, como o oceano embaixo, e ele te enviará chuva abundante.
O fato de uma história da Bíblia hebraica já ter sido contada em uma tabuleta de argila da Mesopotâmia era uma descoberta assombrosa, e Smith sabia disso, como demonstra um relatório da época:

        Smith pegou a tabuleta e pôs-se a ler as linhas que o conservador com que a limpara fizera aparecer; e, quando viu que continha uma parte da lenda que esperara encontrar, disse: “Sou o primeiro homem a ler isto após dois mil anos de esquecimento.” Pondo a tabuleta na mesa, saiu pulando e correndo pela sala, na maior agitação, e, para espanto dos presentes, começou a tirar a roupa!
Era mesmo uma descoberta pela qual valia a pena tirar a roupa. A tabuleta, que se tornaria universalmente conhecida como Tabuleta do Dilúvio, foi escrita onde hoje é o Iraque, no século VII a.C., mais ou menos quatrocentos anos antes da última versão conhecida da narrativa bíblica. Seria possível que a narrativa bíblica, longe de ser uma revelação especialmente privilegiada, fosse apenas parte de uma reserva comum de lendas compartilhada por todo o Oriente Médio?
     Foi um dos grandes momentos de revisão radical da história do mundo no século XIX. George Smith só divulgou a tabuleta doze anos após a publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin. E, com isso, abriu uma caixa de Pandora religiosa. O professor David Damrosch, da Universidade de Columbia, mede o impacto sísmico da Tabuleta do Dilúvio:

Na década de 1870, as pessoas viviam obcecadas por histórias bíblicas, e a veracidade das narrativas bíblicas era um assunto muito controverso. Por isso foi uma sensação quando George Smith encontrou essa versão antiga da história do Dilúvio, obviamente muito mais velha do que a versão bíblica. O primeiro-ministro Gladstone foi ouvir a palestra de Smith sobre sua nova tradução, noticiada em primeira página no mundo inteiro, incluindo um artigo no New York Times, no qual já se dizia que a tabuleta poderia ser interpretada de duas maneiras bem diferentes: isso prova que a Bíblia é verdade ou mostra que é tudo lenda? E a descoberta de Smith deu mais munição para os dois lados do debate sobre a veracidade do relato bíblico e sobre Darwin, evolução e geologia.
Que efeito tem, em nossa percepção sobre um texto religioso, a descoberta de que ele vem de uma sociedade mais antiga, com um conjunto diferente de crenças? Perguntei ao rabino-chefe do Reino Unido, Jonathan Sacks:

Existe claramente um acontecimento central por trás das duas narrativas, que foi uma grande enchente, parte da memória folclórica de todos os povos daquela região. O que as antigas narrativas sobre o Dilúvio fazem é, essencialmente, falar das grandes forças da natureza controladas por divindades que não gostam muito dos seres humanos e para as quais tudo se resolve pela força. A Bíblia aparece e conta a história mais uma vez, mas de forma diferente: Deus envia o Dilúvio porque há muita violência no mundo, e o resultado é que a história ganha sentido moral, o que é parte do projeto da Bíblia. É um salto radical do politeísmo para o monoteísmo: para um mundo em que as pessoas cultuavam o poder, para a insistência bíblica em que o poder tem de ser justo e às vezes compassivo, e de um mundo no qual há muitas forças, muitos deuses, lutando uns contra os outros, para outro em que todo o universo é resultado de uma única vontade criadora racional. Portanto, quanto mais se entende o que a Bíblia combate, mais profunda é nossa compreensão dela.
No entanto, a Tabuleta do Dilúvio era importante não apenas para a história da religião; é também um documento vital na história da literatura. A tabuleta de Smith vem do século VII a.C., mas agora sabemos que a história do Dilúvio foi escrita originalmente mil anos antes. Só mais tarde o relato do Dilúvio foi inserido por contadores de história na famosa epopeia de Gilgamesh, o primeiro grande poema épico da literatura mundial. Gilgamesh é um herói que parte em busca da imortalidade e do autoconhecimento. Enfrenta demônios e monstros, sobrevive a todos os perigos e, por fim, como todos os heróis posteriores, vê-se diante do maior desafio de todos: sua própria natureza e sua própria mortalidade. A tabuleta de Smith é apenas o décimo primeiro capítulo da história. A epopeia de Gilgamesh tem todos os elementos de um ótimo conto, mas é também um momento decisivo na história na escrita.
     A escrita no Oriente Médio começou como pouco mais do que uma forma de fazer contabilidade: criada essencialmente para burocratas a fim de manter registros. Foi usada, acima de tudo, para as tarefas práticas do Estado. Já as histórias eram em geral contadas ou cantadas e aprendidas de cor. Porém, aos poucos, mais ou menos há quatro mil anos, histórias como a de Gilgamesh começaram a ser registradas por escrito. Intuições sobre as esperanças e os temores do herói agora podiam ser ajustadas, refinadas e fixadas; o autor teria certeza de que sua visão particular da narrativa e seu entendimento pessoal da história poderiam ser transmitidos diretamente, e não alterados o tempo todo por outros contadores de história. A escrita transferiu a autoria da comunidade para o indivíduo. Não menos importante, um texto escrito podia ser traduzido, e a forma particular de uma história poderia, agora, passar facilmente para várias línguas. A literatura registrada por escrito tornava-se, assim, literatura mundial. David Damrosch explica esse contexto:

        Gilgamesh agora é muitas vezes apontada nos cursos de literatura como a primeiríssima obra, e isso mostra uma espécie de globalização precoce. É a primeira obra da literatura mundial que circula amplamente no mundo antigo. O mais notável, quando se observa Gilgamesh hoje, é ver que, recuando o suficiente no tempo, não houve choque de civilizações entre o Oriente Médio e o Ocidente. Descobrimos em Gilgamesh as origens de uma cultura comum — seus rebentos aparecem em Homero, em As mil e uma noites e na Bíblia —, portanto ele é, de fato, uma espécie de fio condutor comum na nossa cultura global.

Com a epopeia de Gilgamesh, representada aqui pela Tabuleta do Dilúvio de Smith, o ato de escrever deixou de ser um meio de registrar fatos e passou a ser um meio de investigar ideias. Sofreu uma mudança em sua natureza. E mudou a “nossa” natureza: uma literatura como a de Gilgamesh nos permite não apenas explorar nossos próprios pensamentos, mas habitar o mundo da imaginação de outros. Essa, obviamente, é também a ideia do British Museum e, na verdade, dos objetos que compõem este fio condutor da história da humanidade que tento traçar aqui: eles nos oferecem a possibilidade de outras existências.

A delicada e pequena escrita cuneiforme na Tabuleta do Dilúvio foi impressa na argila úmida












TABULETA DO DILÚVIO

é o 16º capítulo do livro

A HISTÓRIA DO MUNDO EM 100 OBJETOS




NEIL MacGREGOR

Tradução de Ana Beatriz Rodrigues, Berilo Vargas e Cláudio Figueiredo

Copyright © the Trustees of the British Museum and the BBC, 2010
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TÍTULO ORIGINAL
A History of the World in 100 Objects

ADAPTAÇÃO DE CAPA
Julio Moreira

PREPARAÇÃO
Carolina Rodrigues

REVISÃO
Suelen Lopes
Clara Diament

REVISÃO DE EPUB
Fernanda Neves

PRODUÇÃO DE EPUB
Simplíssimo Livros

Edição digital: 2013

Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Intrínseca Ltda.
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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

JOANA D'ARC (1412-1431)

A jovem camponesa torna-se soldado e símbolo de uma luta. As chamas que consumirão seu corpo não destruirão a bandeira que ela significou para os franceses.


     Chinon, março de 1429. Como tantas outras cidades, pequenas ou grandes, do reino da França, Chinon é rodeada de muralhas. Para entrar, é preciso passar por um ou dois portões guardados e explicar muito bem a razão da visita. Caso contrário, abaixam-se as grades e ninguém mais entra ou sai — a cidade inteira se transforma numa praça-forte. Quartel-general dessa fortaleza: o castelo, com seu fosso só transponível através da ponte levadiça.
     Nos salões do castelo há muita agitação. Barões, duques e outras personalidades discutem em voz alta. Parecem esperar alguma decisão. As atenções se concentram numa grande porta, por onde costuma entrar o jovem Carlos, príncipe herdeiro do trono da França.
     Mas o príncipe prefere ficar sozinho nos seus aposentos. Simplesmente não sabe o que dizer aos súditos. A situação, na verdade, é mais grave do que nunca — a chamada Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, atravessa um momento decisivo. Forças inglesas ocupam a maior parte do país e um dos últimos bastiões de resistência, a cidade de Orléans, está sitiada, pode cair a qualquer momento nas mãos do inimigo. É necessário decidir urgentemente o envio de um reforço. Mas o Príncipe Carlos hesita — os soldados são poucos e têm o moral enfraquecido pelas derrotas passadas. Além do mais, falta um chefe, alguém capaz de conduzir as tropas e fazê-las acreditar na possibilidade de uma vitória. Como consegui-lo, se ele mesmo, o próprio príncipe, já tem sua autoridade contestada por tantos compatriotas? Não há mesmo quem negue que ele seja o herdeiro legítimo do trono? . . . Quanto mais Carlos pensa, mais confuso e pessimista vai ficando.

A chegada de Joana ao palácio real, em Chinon, foi apresentada muitas vezes como uma entrada triunfal. Mas, ao que parece, o rei desconfiou daquela menina que se apresentava como salvadora e resolveu aplicar-lhe vários testes, para comprovar a veracidade da sua história. Uma enviada de Deus serviria bem à propaganda de sua causa. 

     Embaixo, nos salões, a impaciência aumenta. De repente, a grande porta se abre. Todos se calam, preparando-se para saudar o príncipe. Então, a surpresa. Mal e mal cabendo em sua pesada armadura, surge uma menina de apenas dezessete anos, anunciada solenemente por um pajem: "Joana d'Arc, camponesa, chegada do vilarejo de Domrémy, que viajou dez dias e dez noites para cumprir uma missão do Céu, solicita humildemente a permissão de ver Sua Graciosa Majestade, o príncipe herdeiro... "

UMA MENINA METIDA A SANTA, VESTIDA EM ARMADURA, QUER FALAR COM O PRÍNCIPE

     — Com que direito uma simples camponesa pretende incomodar Sua Majestade em momento tão grave? — pergunta La Trémouille, assessor principal de Carlos.
     — O arcanjo São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida apareceram a mim numa grande luz e me ordenaram procurar o príncipe e libertar a cidade de Orléans! — responde Joana.
     La Trémouille troca olhares irônicos com seus vizinhos; quase não pode conter o riso. Dirige-se a Joana com uma solenidade exagerada — "Sua Majestade será prontamente avisada de vossa providencial chegada!" — e manda dizer ao príncipe que uma menina metida a santa apareceu no castelo contando histórias divertidas.
     — Quem sabe Sua Majestade poderia lhe dar o lugar do bufão, que anda muito sem graça ultimamente ...
     Carlos recebe a notícia com espanto. Mas, para se divertir, resolve aplicar um teste na recém-chegada. Vestindo-se como um súdito qualquer, entra por uma porta lateral e mistura-se aos nobres. Depois, manda que façam Joana entrar novamente. Como simples camponesa, ela não pode conhecer-lhe a fisionomia. Contudo, se o identificar ...
     Joana não vacila. Caminha até um canto dos salões, onde alguns nobres fingem conversar distraídos. Ajoelha-se aos pés do príncipe e diz:
     — Gentil senhor, em nome de Deus, eu posso dizer que sois filho do rei e herdeiro legítimo do trono da França!
     O príncipe está aturdido. Pede a vários bispos e cardeais que interroguem Joana:
     — Em que língua te falaram os santos?
     — Melhor do que a vossa, Excelência.

Segundo contou Joana, as vozes lhe ordenaram duas tarefas: salvar a França e coroar seu rei. Em pouco tempo, a história de suas visões se espalhou. Para uns, Joana era uma santa; para outros, uma enviada do diabo. (Óleo de Jules Jules-Eugène Lenepveu, Paris.)

     Em pouco tempo a segurança e a simplicidade da jovem acabam por convencer a todos. A começar pelo próprio príncipe.

O REI ESTÁ LOUCO. QUEM VAI GOVERNAR?

     Tragédia e intriga marcam a história do Príncipe Carlos e de toda a sua família. Carlos VI, seu pai, casara-se com uma princesa alemã de quinze anos, Isabel da Baviera. Um casamento arranjado, como era costume entre as famílias nobres. A menina foi ficando moça e, ao que parece, cada vez mais bela e atraente. Diziam as más línguas que a fidelidade ao marido não era exatamente o seu forte. Verdade ou não, o fato é que em pouco tempo Carlos VI tornou-se extremamente nervoso; e ao fim do sexto ano de casado teve o primeiro ataque de loucura.

Carlos VI está louco. Em meio a uma batalha, tenta matar um cavaleiro de seu próprio séquito. (Miniatura da época, Museu Condé de Chantilly.)

     Aproveitando-se da doença do rei, seu primo, o Duque de Borgonha (mais conhecido como João Sem Medo), começou a manobrar para tomar o poder. Mas ele não era o único a ter essa ideia: o Duque de Orléans, irmão de Carlos VI, também ambicionava a coroa. Por isso João mandou matá-lo.
     Os homens de Orléans não podiam aceitar esse desfecho. Depois de fundar um partido — o Armagnac — em torno do qual se reuniram, deram início à luta contra Borgonha.
     Na época não existia propriamente um país chamado França, como o entendemos hoje: o reino estava dividido em vários feudos, governados cada um por um senhor. Havia sem dúvida um rei, mas seus domínios e sua autoridade eram limitados a uma certa região. Fora daí, cada duque ou conde mais importante tinha seu próprio castelo, exercendo poder sobre enormes extensões de terra; cada castelo tinha a sua bandeira, seus cavaleiros munidos de lanças e escudos, com o brasão do senhor. O Duque de Borgonha era o maior dentre esses senhores feudais. Seu ducado — situado ao norte da França e incluindo a Bélgica de hoje — era maior e mais rico do que vários reinos; sua corte, mais suntuosa que a de muitos reis.
     Cada um desses ducados interessava-se principalmente por si próprio. Um súdito qualquer de Borgonha, antes de ser um francês, era em primeiro lugar um borgonhês. Comumente, os nobres casavam com princesas estrangeiras. Assim, as famílias reais e as nobrezas de vários países se misturavam. Podia acontecer, por exemplo, que um inglês viesse a ser rei da França. Os ingleses, aliás, não queriam outra coisa; reivindicavam a coroa francesa. Só que os franceses não gostavam da ideia. A luta começou pela disputa da Aquitânia, uma região do sudoeste da França, e se prolongou, intermitentemente, entre 1337 e 1450. Um cônego francês afirmava em fins do século XIV que "durante toda a sua vida vira apenas guerra". A frase poderia ter sido dita por seu pai ou por seus sobrinhos. A fome, a guerra e a peste foram tão constantes naquela época que surgiu nas zonas rurais uma nova invocação religiosa, na qual se pedia ao Senhor para livrar os homens destes três flagelos.
     Quando estourou na França a luta entre os dois ducados, no curso da Guerra dos Cem Anos, Henrique V, da Inglaterra, entendeu que a ocasião era boa para fazer uma nova investida. Não queria combater contra Borgonha, pois a Inglaterra mantinha intenso e vantajoso comércio com esse ducado. Preferiu desembarcar 30 000 homens na França, lançando um ataque às forças de Orléans. Foi a terrível batalha de Azincourt (1415), considerada a maior daquele século.

Na batalha de Crécy, como em seguida em Azincourt, ficou evidente a superioridade da infantaria e dos arqueiros ingleses               sobre a pesada cavalaria feudal. (Miniatura, séc. XIV, Biblioteca Municipal de Toulouse.)

     Na Idade Média os chefes de dois exércitos inimigos costumavam almoçar juntos antes de uma batalha e combinar as regras do jogo (recuar, por exemplo, era considerado vergonha para um cavaleiro, mesmo que estivesse em posição desfavorável). Para os nobres franceses a guerra ainda era assim, um misto de aberto conflito de interesses e de competição esportiva. Em Azincourt os cavaleiros e soldados franceses puseram-se em formação de alinhamento e foram avançando lentamente, em coluna. Contudo, os ingleses não respeitavam mais as velhas regras: escondidos atrás de uma colina, seus melhores arqueiros despejaram uma chuva de flechas sobre os adversários. Era uma grande inovação militar: os franceses, vestidos com pesadas armaduras e sem recuar por questão de honra, foram massacrados. Tiveram mais de 10 000 mortos.
     Toda a metade norte da França caíra em mãos dos ingleses ou dos seus aliados de Borgonha; Paris ficava sendo governada por um regente inglês, Bedford. Nobreza e funcionários franceses se acomodaram muito bem na nova situação, pois os ingleses ofereceram numerosas vantagens econômicas. Os poucos partidários de Orléans que restaram tiveram que fugir mais para o sul. O mesmo aconteceu com a família real.

Bastão de comando na mão, os senhores leais ao rei da França dirigem suas fôrças contra o inimigo inglês. (Min. séc. XV, Biblioteca do Arsenal, Paris.)

     Carlos VI enlouquecera. Mas havia um herdeiro, o Príncipe Carlos, e uma filha, Catarina. Querendo obter as boas graças dos ingleses, Isabel, a rainha, convenceu o marido a abdicar da coroa e oferecer a mão de Catarina ao rei da Inglaterra. Henrique V, apesar de velho e doente, aceitou depressa a oferta. Além de ganhar uma linda princesinha francesa, o negócio tinha outra vantagem, muito mais importante: a possibilidade de unir sua família com a família real francesa. Casaram-se e logo tiveram um filho, Henrique. Mas o velho rei morreu antes que o menino completasse um ano de idade. A criança, filha de um rei da Inglaterra e de uma princesa da França, foi proclamada "solenemente, pela graça de Deus, rei da França e da Inglaterra e soberano senhor de dois reinos".
     Mas Isabel e o "rei louco" ainda tinham outro filho, o Príncipe Carlos, já então um rapaz. Qual dos dois príncipes era agora o legítimo herdeiro? Carlos, o francês, ou Henrique, o inglês? Para desacreditar Carlos, os ingleses começaram a espalhar um boato: na verdade, como Isabel era uma "senhora de costumes duvidosos", o verdadeiro pai de Carlos não fora o velho Rei Carlos VI . . . Sendo filho de um pai desconhecido, o príncipe não podia ser herdeiro de coroa alguma.
      Nessa hora, Joana d'Arc chegou ao castelo e resolveu a grande dúvida do príncipe, fazendo-o crer que Deus revelara ser ele o legítimo herdeiro e ordenara a Joana coroá-lo soberano da França.

A JOVEM CAMPONESA DE DOMRÉMY DESCOBRE A GUERRA

     Mas quem era essa camponesa que se investiu de tão importante missão? Joana d'Arc nasceu em 1412, na cidade de Domrémy; quanto a isso não há dúvida. Mas ela se tornaria mais tarde tão famosa que até hoje existe uma disputa para saber a que província pertencia, na época, o seu lugar natal. Para alguns era a Champagne, para outros a Lorena. O General De Gaulle adotou como símbolo patriótico a dupla cruz de Lorena, em homenagem a ela (e os ingleses não perderam a oportunidade para ironizá-lo, dizendo que ele se considerava uma reencarnação de Joana d'Arc ...).
     Criada numa família camponesa, Joana teve três irmãos e uma irmã. Como eles, ajudava o pai no trabalho da terra, tomava conta dos carneiros no pasto e auxiliava também a mãe em casa. Por isso, não teve tempo para estudar; não aprendeu a ler nem a escrever. Só lhe ensinaram a dizer de cor o Padre-Nosso e a Ave-Maria, e assim mesmo errava muito. Sua casa ficava junto à igreja e Joana tornou-se muito crente — bastava ter cinco minutos livres e já corria a rezar. Não perdia uma só procissão ou festa religiosa. Mas também achava tempo para brincar com as outras crianças.
     Ficou muito impressionada quando um dia a família toda teve que fugir da cidade; as tropas inglesas estavam perto e foi preciso se esconder delas por uns tempos. Pela primeira vez, Joana soube o que era guerra. Porque raramente se ouvia falar nisso em Domrémy. A cidadezinha era afastada dos campos de batalha e as notícias andavam muito devagar nessa época. Não existia jornal nem correio. Só se sabia de alguma coisa quando passava um cavaleiro informado. Mas os caminhos eram tão ruins que um cavaleiro levava semanas para andar poucos quilômetros. Às vezes acontecia algo importantíssimo na cidade vizinha e apenas se ficava conhecendo os fatos, em Domrémy, um mês depois.
     Mas agora a situação estava realmente difícil para o próprio lugarejo; a população assustava-se com a aproximação dos ingleses. Foi quando Joana, então com doze anos, afirmou ter tido suas fantásticas visões. Segundo seu relato, ela passeava certa tarde pelo jardim da casa quando, de repente, uma luz fortíssima apareceu no céu, surgindo logo em seguida santos, aos quais prometeu ser boa, ter sempre fé e guardar eternamente a castidade; depois, ouviu vozes que lhe ordenavam salvar a França e coroar o rei.
     Durante quatro anos ela hesitou. Nesse meio tempo, a história das suas visões se espalhara. Enquanto muitos já a olhavam como santa e até como curandeira, outros sussurravam que Joana podia ser uma enviada do demônio... Certa ocasião, o Duque de Lorena mandou chamá-la, pedindo-lhe que curasse suas doenças. Joana não curou nada, só lhe deu um conselho: abandonar a amante e voltar à sua própria mulher...
     Joana continuava angustiada, indecisa, quando soube que a cidade de Orléans estava cercada. A guerra chegara a um momento crítico e a França não tinha um rei para defendê-la. Assaltada por esse pensamento, Joana resolveu-se. Procurou o Capitão Baudricourt e lhe pediu uma escolta para acompanhá-la até o príncipe. O capitão cedeu, pois toda a população estava ao lado da jovem. Com o dinheiro de uma coleta, conseguiram-lhe uma armadura e uma espada. E a 23 de fevereiro de 1429 Joana d'Arc partiu a cavalo na direção de Chinon.

Foi preciso muito esforço para convencer o Capitão de Vaucouleurs a fornecer-lhe a espada, um cavalo e uma carta de apresentação ao rei. Mas todo o povo já sabia e acreditava na missão de Joana d'Arc. (Jules-Eugène Lenepveu, Paris.)

     Uma lenda percorria então todo o reino: "Perdida por uma mulher, a França será salva por uma virgem". A mulher, todos imaginavam que fosse Isabel, a rainha. Quanto à virgem, já se começava a falar em Joana d'Arc.

UMA MENINA DERROTA A INGLATERRA

     Joana ganha a confiança de seu príncipe. Convencido de que é preciso agir depressa, Carlos outorga-lhe o título de "chefe de guerra".
     Falta uma espada. Joana conta que, segundo as vozes que ouvira, uma excelente espada estava escondida atrás do altar de Santa Catarina. Enviado até lá, um pajem volta com uma velha espada, completamente enferrujada. Dizem que bastou encostar nela um pano para que a arma ficasse brilhante na mesma hora.

                                                   A partida de Joana faz nascer uma esperança no povo místico da época:                                                       Deus a teria enviado para terminar com as guerras e a miséria.

     Joana recebe o comando de um comboio de víveres. A missão: furar o cerco de Orléans e abastecer os soldados já famintos. A moça põe-se à frente do grupo, levando nas mãos um estandarte, onde, ao lado de Deus, figuram os nomes de Jesus e Maria e o símbolo do reino, a flor-de-lis. Alguns dias mais tarde o comboio entra triunfante na cidade. Um coro de padres marcha à frente, cantando o Veni Creator.
     Joana não perde tempo. Liderando as tropas, ordena uma incursão contra os ingleses. Depois de algumas investidas, toma as principais bases de apoio do inimigo, que, surpreso com a violência do ataque, bate em retirada. Está libertada a cidade de Orléans. Uma das "regras" da guerra diz que um domínio não pode ser atacado na ausência do seu senhor. Ora, o Duque de Orléans ainda estava prisioneiro dos ingleses. Estes, ao atacarem a cidade, tinham cometido portanto um grande ultraje. Com a vitória de Joana, está salva a honra de Orléans.


Tendo Joana como estandarte, as forças de Carlos VII rompem o cerco de Orléans e retomam várias posições.

     Mas isto, para Joana, é apenas a primeira etapa. Falta agora o principal: coroar solenemente o príncipe na Catedral de Reims. Ocorre que Reims situa-se em território controlado pelos ingleses. Para chegar lá é preciso enfrentar vários batalhões inimigos. Joana está decidida, mas o príncipe hesita. Ela insiste: "Gracioso príncipe, Vossa Alteza já reuniu tantos e tão longos conselhos. Chegou a hora de seguir-me e vir receber em Reims a vossa digníssima coroa!" Carlos se convence. E, em apenas um mês de campanha, o exército de Joana, depois de infligir uma sucessão de derrotas aos ingleses, penetra em Reims a 16 de julho.

                                          A segunda parte da sua missão era chegar a Reims e coroar o rei na catedral.                                            Mas havia ingleses pelo caminho: muitas cabeças ficaram nas estradas.

     A entrada triunfal numa cidade era o maior símbolo de uma vitória. A cerimônia se preparava meticulosamente. Às vezes, até ocorria alguns dias depois da verdadeira entrada, para dar tempo de se organizar uma entrada a caráter, uma verdadeira apoteose. A população nas ruas aplaudia a cavalaria e o estandarte dos vencedores, após o que apareciam os chefes, anunciados por cornetas e vestidos com uniformes de gala.
     Joana aproveita para unir essa festa a uma outra — no dia seguinte, realiza-se solenemente na Catedral de Reims a coroação de Sua Majestade, Carlos VII, rei da França. De pé, ao lado do rei, tendo na mão seu estandarte, fica o "chefe de guerra", Joana d'Arc. Tomando a mão do novo soberano, diz-lhe:
     — Gracioso rei, está cumprida a vontade de Deus. Orléans de volta ao reino e Vossa Majestade coroado como único e legítimo rei da França.

Coroado Carlos VII, Joana chega ao apogeu da glória. Sua missão, para o rei, já se cumpriu. A partir daí, a heroína começa a se tornar incômoda. (Jules-Eugène Lenepveu, Paris.)

     Joana, no entanto, não está satisfeita. Não há ainda tantas terras francesas em mãos do inimigo? "Como seria bom", diz ela, "que Deus meu criador me ordenasse agora abandonar as armas, servir meu pai e minha mãe guardando as ovelhas... " Mas como pode a França ser livre, se Paris continua governada por um regente inglês? Sua Majestade, entretanto, não mostra o menor entusiasmo por outras aventuras. Alega que a missão de Joana está concluída.

CONQUISTAR PARIS É MAIS IMPORTANTE QUE GUARDAR OVELHAS

     As coisas mudaram. O príncipe agora é um rei coroado e está finalmente numa posição de força. Seu conselheiro, La Trémouille, diz-lhe ao ouvido:
     — Para que arriscar-se numa batalha dessas? Podemos muito bem entrar num acordo vantajoso com os ingleses e com o Duque de Borgonha... Além do mais, não podemos ter confiança eternamente em nossa heroína. Afinal, trata-se de uma mulher.
     Mas Joana insiste mais que o conselheiro. O rei acaba lhe concedendo uma tropa de quatrocentos homens — apenas quatrocentos homens — para conquistar Paris. Ela sai à frente; o Rei Carlos deverá encontrá-la em seguida. Chegando às portas de Paris, Joana espera por ele quinze dias.
     Do outro lado das muralhas, Paris prepara-se para uma longa resistência. A fama de Joana d'Arc é enorme. E os ingleses temem também o prestígio do novo rei. É importante impedir, de algum modo, que ela cative a população da cidade para a causa de Carlos VII. Bedford organiza uma grande procissão na cidade. Mais de 50 000 pessoas desfilam de tochas acesas nas mãos, jurando fidelidade ao Duque de Borgonha e ao regente inglês. Tratam Joana d'Arc pelos piores nomes — Bedford afirma que ela é um instrumento do demônio!
     Nas praças públicas, costumavam-se representar pequenas peças de teatro, ou mesmo simples cenas de dança ou de poesia. Era uma mistura de parque de diversões e de mercado: rebanhos de animais atravessando as ruas, carroças vendendo legumes, crianças brincando. Tudo isso em meio a uma terrível sujeira. As ruas não eram calçadas e não havia esgotos: detritos de toda espécie eram jogados na rua e se misturavam na lama. O povo passeava despreocupado, escolhendo entre um ou outro espetáculo. Mas agora o tema principal é Joana d'Arc. Ela aparece nos papéis mais incríveis. Nos versos, fala-se nela como "mulher pública" de Orléans.
     Enquanto dá esse divertimento para o povo, Bedford fortifica as muralhas, fabrica armas e baixa decretos: durante o cerco da cidade pelas tropas de Joana d'Arc, qualquer entrada ou saída pelos portões de Paris está proibida. Fica também proibido mandar ou receber cartas. Será severamente punido quem ousar subir nas muralhas da cidade, ainda que só para espiar (apenas as sentinelas armadas têm esse direito). Mas a verdade é que Paris não está, nem de longe, cercada. A falta de notícias leva os ingleses a exagerar o perigo.



Joana vence as fôrças inglesas em Patay (acima), mas não dá sua tarefa por terminada. Pede audiência ao soberano e recebe autorização para investir contra a cidade de Troyes (ao centro). A campanha é rápida e fulminante — Joana volta pouco depois ao monarca e apresenta as chaves da cidade conquistada (embaixo).

     Quando enfim o Rei Carlos chega e o ataque é iniciado, os ingleses dão uma resposta fulminante: a própria Joana é atingida por uma flecha que lhe vara a coxa. É preciso retirá-la à força do campo de batalha, pois ela não quer recuar de modo algum. Mas o rei é quem decide: o ataque fracassou, por ora desiste-se de Paris.
     Mal se recupera de sua ferida, Joana quer recomeçar a luta. Mas Carlos ouviu La Trémouille. Está decidido a conciliar com os inimigos. Inicialmente, manda Joana evacuar o Castelo de Compiègne, que está cercado pelo Duque de Borgonha. Missão sem grande importância, mas perigosa. Joana penetra no castelo e começa a proteger a retirada das tropas. De repente, quando quase todos já saíram, a ponte do castelo é levantada. Joana d'Arc está prisioneira.

Insistindo em continuar a luta, Joana é enviada a Compiègne e ferida no combate. (Jules-Eugène Lenepveu, Paris.)


PARA A SANTA INQUISIÇÃO ESSA MOÇA É UMA BRUXA

     Terá sido uma armadilha? Será que o rei, ou La Trémouille, já de acordo com o Duque de Borgonha, resolveu entregar Joana? De fato, os conselheiros do rei viam em Joana apenas um instrumento útil para dar confiança aos soldados e à população — uma espécie de bandeira ou de mascote do batalhão. Chegada a hora das barganhas e combinações diplomáticas, uma santa guerreira podia se tornar incômoda. Fosse ou não uma armadilha, a verdade é que Carlos VII nada fez para libertá-la.
     Aprisionada por uma companhia do Duque de Luxemburgo, Joana é encerrada no alto de uma torre. Mas tenta escapar. Improvisando uma corda com os lençóis, pula a janela e começa a escorregar pelo muro; contudo, a corda se arrebenta e ela cai desmaiada no fosso do castelo. O duque decide então vendê-la aos ingleses: Bedford paga 10 000 escudos e manda colocá-la numa jaula de ferro, os pés e as mãos amarrados. "Com uma enviada do diabo", diz ele, "é preciso tomar algumas precauções... "
     Se pagou um preço tão alto é porque tem um interesse especial na presa. Há muito tempo Bedford vem ruminando uma ideia: entregar Joana à Santa Inquisição, o mais elevado tribunal da Igreja na França. O objetivo: provar que Joana d'Arc não é nada menos que uma enviada do demônio. Essa condenação infamante, proferida pela própria Igreja da França, será uma grande desmoralização para o Rei Carlos. Todo mundo se perguntará que espécie de rei é este, que se deixou enganar por uma bruxa e foi até coroado por ela. Ao mesmo tempo, os ingleses mostrarão a todos que Deus está de seu lado, não da França.

 Feita prisioneira e entregue à Santa Inquisição, Joana é interrogada pelo Bispo de Beauvais, Pierre Cauchon: "Como foram mesmo as tais visões?... "
     O tribunal reúne-se pela primeira vez em fevereiro de 1431, sob a presidência do Bispo Pierre Cauchon, um velho partidário do Duque de Borgonha, aliado portanto da Inglaterra. Cauchon escolhe mais de setenta conselheiros religiosos para fazer parte do júri, todos ligados aos mesmos interesses. A acusada não tem o mínimo direito, nem mesmo a um advogado de defesa. Só se aceitam as testemunhas contra ela. Seu interrogatório é uma verdadeira tortura mental, destinado a confundi-la e levá-la ao desespero.
     Com relação às "visões", ninguém alega que são invenções da acusada. O que querem provar é que — ao invés dos santos — diabos e bruxas apareceram a ela:
     — Como eram os tais santos, tinham braços? Eram cabeludos? Por acaso tinham chifres?... E São Miguel, estava nu?
     — Os senhores acham que Deus não tinha roupas para dar a ele? —responde Joana.
     Mas para os juízes não há dúvida, quem conversa com criaturas do inferno só pode ser uma enviada de Satã. Prosseguem a inquisição:
     — Joana, reconheces que com a ajuda do diabo enganaste o Príncipe Carlos e ganhaste a sua confiança?
     — Não!
     — Ela disse sim — continua o juiz. — Podem pôr na ata: FEITICEIRA!
     Nada adiantam seus protestos. Só uma bruxa poderia ter adivinhado quem era o príncipe disfarçado entre os nobres, afirmam os juízes. "Só uma diaba podia ter comprado a alma de um rei".
     — E por que esta impudorada mulher só anda com roupa de homem? Não sabe que a Bíblia e todos os concílios consideram pecado tal sacrilégio?
     — São as roupas que uso para ir à guerra e defender a França.
     — Por acaso ainda é virgem esta mulher imunda?
     A essa pergunta, eles mesmos respondem: "PROSTITUTA!"
     Mas o crime mais grave para o tribunal é a heresia.
     — Como então esta mulher pretende obedecer diretamente a Deus e aos santos, sem respeitar a Igreja? Pois se a Igreja e o Tribunal da Inquisição são os representantes de Deus sôbre a Terra!
     — Herética! Bruxa! Relapsa! Prostituta!/Inimiga de Deus! Inimiga do rei! Inimiga do povo!/ Que ela seja levada, que ela seja morta,/que ela seja queimada!
     Com estes versos, o poeta Paul Claudel procura exprimir a terrível condenação dos inquisidores, que por quatro meses só têm um objetivo: obter de Joana a abjuração. Que ela reconheça as próprias culpas e renegue tudo o que disse ou fez em sua vida. Só assim alguém acreditará na sentença. Prometem poupar sua vida, se ela assinar a confissão. Por fim, Joana não resiste mais a tanta tortura. Completamente esgotada, a ponto de sua mão ser conduzida por um oficial de justiça, desenha uma cruz num documento contendo algumas linhas em francês — aliás, diverso do que apareceu depois no processo, ampla "confissão" escrita em latim. Uma vez obtida essa "confissão", ninguém se lembra de cumprir o prometido. Mandam preparar uma fogueira na praça central de Rouen, pois "só pelas chamas se destrói uma feiticeira". No dia 30 de maio, a multidão começa a se concentrar na praça.

A “FEITICEIRA” FOI QUEIMADA. ESTÁ NASCENDO UMA HEROÍNA

     A execução nessa época é sempre um espetáculo. O público vai assisti-la como a um divertimento, sem se comover com a cena. Mas desta vez o bispo teme uma manifestação favorável à condenada. Por isso, 120 homens armados com lanças e espadas acompanham Joana d'Arc até a praça e amarram-na ao poste. Seu cabelo está raspado. Seu olhar, mais que o cansaço, mostra dignidade.

Seu suplício foi um espetáculo público. Era preciso queimá-la e espalhar as cinzas — o símbolo da resistência francesa devia ser bem destruído. (Lenepveu, Paris.)

     Antes de acenderem o fogo, seus carrascos têm o cuidado de fazer o povo constatar a identidade da vítima. Depois de totalmente queimado, o corpo é reduzido a cinzas. Não querem deixar intatos ossos que possam servir de relíquia. Querem impedir que o povo transforme Joana d'Arc em objeto de veneração.

A NOVA JOANA É UMA GRANDE VIGARISTA

     0 objetivo inglês só foi atingido em  parte. Joana d'Arc fora condenada e queimada como feiticeira, por um tribunal de partidários de Borgonha, que todos sabiam ser aliados da Inglaterra. Mas morreu negando. A reputação do Rei Carlos não chegou a sofrer tanto quanto o esperado.
     De qualquer forma, os ingleses ainda têm uma esperança. Escrevendo a Henrique VI, diz Bedford:
     "Depois do cerco de Orléans, as coisas andaram de mal a pior para nós; nossos adversários inventaram uma mulher desordenada, feiticeira, idólatra e herética, cujos horríveis crimes conduziram-na justamente à fogueira. Desaparecida a causa diabólica de suas derrotas, a Inglaterra retomará certamente as posições perdidas", conclui ele.
     Para os franceses, apesar de tudo, a morte de Joana d'Arc teve um profundo efeito — um símbolo da França fora queimado numa fogueira. Por esse tempo, a ideia de "pátria" não existia; os vários feudos e ducados ainda não se tinham unido para formar o país. Dessa forma, nem todos entendiam por que o rei insistia tanto em expulsar os ingleses. Joana também não percebia bem. Mas estava convencida de que a luta era justa. Nessa época, a crença mística incentivava os homens, na guerra, com mais eficácia do que o sentimento nacional. Sem sua "santa guerreira", era como se a França tivesse perdido o apoio do Céu.
     Como continuar a guerra? Paris ainda estava em poder dos ingleses, que também ocupavam muitas outras regiões da França. De onde viria a salvação? Todos esperavam que algo acontecesse, que algum sinal viesse do Céu e desse de novo confiança aos franceses. Foi então que ocorreu o estranho episódio da falsa Joana d'Arc.
     Maio de 1436. Na cidade de Metz aparece uma jovem que jura ser a própria Joana d'Arc. — Não me queimaram. Puseram uma outra condenada em meu lugar e eu consegui escapar!
     Ansioso por uma aparição salvadora, o povo acredita na história. Mais incrível ainda: no mesmo dia, dois irmãos de Joana d'Arc, Pierre e Jean, chegam à cidade e não hesitam em afirmar: a recém-chegada é mesmo a irmã deles!

Dizem as lendas que Joana d'Arc jamais usou sua espada, a não ser sobre as "mulheres de má vida" que se misturavam às tropas.

     Diante de tantas "evidências", a população reúne recursos para dar a esta Joana um cavalo, uma espada e outros apetrechos e, especialmente, o dinheiro, de que ela diz estar necessitada. . . A jovem monta extremamente bem e maneja a lança como uma guerreira. "Ela ainda está em plena forma", reconhecem todos.
     Pouco tempo depois, um dos irmãos da verdadeira Joana surge em Orléans. Pede 12 francos aos habitantes do lugar, alegando que precisa de recursos para ir ao encontro dela. Nos anos de 1437 e 1438 a missa em memória de Joana d'Arc é suspensa na cidade: pois, se é fato que ela está viva, nada mais ridículo que rezar por sua alma! Em 1439, a própria "Joana" chega à cidade, sendo acolhida com grandes honras. Oferecem-lhe uma recompensa de 210 libras, "pelo bem que ela fez à cidade, durante o cerco", e dão-lhe um jantar regado com os melhores vinhos da região. A convidada não acabou ainda de esvaziar o copo, quando, de repente, levanta-se e, dando um pretexto qualquer, desaparece do salão - e da cidade. Os demais convivas não demoram muito para entender o acontecido. Um mensageiro chega e dá a notícia: "Foi descoberto que a dita Joana d'Arc é uma impostora!".
     Apesar disso nem todo mundo fica convencido. Assim, um sapateiro apresenta-se ao tabelião, acompanhado de um cavaleiro. Quer registrar a seguinte aposta: um par de botas contra um cavalo, como Joana d'Arc está ainda perfeitamente viva. Conta-se também que a falsa Joana quase enganou o próprio rei. Levada ao castelo, ela teria repetido a proeza da verdadeira Joana, reconhecendo o soberano disfarçado entre os nobres. Mas quando o rei perguntou qual era o "segredo" que existia entre ambos, a impostora se atrapalhou e confessou a farsa. Presa em Paris pouco mais tarde, confessou também que se chamava Claude, que era casada e mãe de dois filhos!
     Com muita facilidade, todos chegaram a acreditar por bom tempo nesta e em outras falsas Joanas. A França precisava de um herói, de uma bandeira para continuar a guerra. Na verdade, todos queriam acreditar que Joana não morrera.

ANTES, BRUXA. AGORA, SANTA

     Se Joana d'Arc não se tivesse transformado em heroína, é bem provável que alguém cumprisse seu papel de símbolo na luta dos franceses contra os ingleses. O que não significa, entretanto, que uma outra pessoa fosse fazer exatamente o que fez Joana, vencendo as mesmas batalhas, indo até a fogueira sem renegar a sua missão. Um herói geralmente surge quando há uma ansiedade geral por sua aparição, quando se espera muito por ele.
     Na época de Joana, o misticismo era uma importante força histórica. Os reis eram considerados reis "por direito divino". Que melhor forma, então, de assegurar-se da legitimidade, no caso de Carlos VII, do que através daquela palavra "que vinha do Céu"? A crença nos feitos sobrenaturais de Joana e o mito das "falsas Joanas" só se explicam no clima cultural da época, onde todos "precisavam acreditar".

Reconhecido enfim como rei da França, Carlos VII preferiu negociar a enfrentar o inimigo.

     À medida que a nação francesa foi-se formando, a figura de Joana foi, cada vez mais, sendo glorificada. Em 1450, o grande objetivo da heroína estava realizado: Paris reocupada por Carlos VII e os ingleses expulsos de toda a França. A Guerra dos Cem Anos terminara.
     Não se podia agora deixar difamado o nome daquela que fora a grande heroína da causa francesa. Decidiu-se rever seu processo, com a autorização do papa, pois se tratava de um processo da Inquisição. Constatou-se então que ele havia sido inteiramente arquitetado para dar uma "fachada cristã" à ocupação inglesa e para desmoralizar o rei da França. Denunciou-se a crueldade empregada para forçar a confissão de Joana d'Arc:
     — Nós dizemos, pronunciamos e declaramos que o dito processo e sentença, manchados de falsidade, de calúnia, de iniquidade, de contradição, de erro manifesto de fato e de direito, inclusive a abjuração, a execução e todas as suas consequências, foram, são e serão nulos, invalidados, sem valor e sem autoridade.
     Estava pronunciada a reabilitação de Joana d'Arc.
     Com a Revolução Francesa de 1789, ficava consolidada a nação. Joana tornava-se heroína nacional. Inaugurando em 1803 um monumento em sua homenagem, Napoleão Bonaparte declarava aos cidadãos de Orléans:
     — A ilustre Joana d'Arc nos prova que não existe milagre que o gênio francês não possa cumprir, quando a independência nacional está ameaçada.
     O reconhecimento governamental estava feito. Faltava o da Igreja: em 1909, Joana era beatificada; em 1920, canonizada e proclamada Santa Padroeira da França.
     Para os ingleses, ela continuou por muito tempo a bruxa que os expulsara da França com a ajuda do diabo... O teatrólogo William Shakespeare, em sua peça Henrique VI, apresenta-a como uma feiticeira que não hesita em se declarar grávida para escapar à fogueira. Foi preciso passar muito tempo para que ela fosse reconhecida também pela Inglaterra. Agora, na Catedral de Westminster, em Londres, há uma estátua de Joana d'Arc, colocada num lugar de honra. Sem dúvida, o último lugar onde Joana um dia pensaria estar.

A GUERRA DOS CEM ANOS



     Em 1429 a França era um país curvado ao invasor inglês e sem ânimo para reerguer-se: o Delfim Carlos VII, que se refugiara em Bourges, não se preocupava muito com a defesa do país, Orléans era a última grande cidade ainda em mãos dos franceses, 92 anos após o início da guerra que duraria mais de um século (a Guerra dos Cem Anos). Não se acreditava, àquela altura, que um dia a resistência se reavivasse e o jugo inglês caísse por terra. Muito menos que a iniciativa de encetar campanhas decisivas partisse de uma jovem camponesa de dezesseis anos: Joana d'Arc sai de sua terra natal — Domrémy — e consegue chegar ao delfim, na cidade de Chinon, convencendo-o a dar-lhe um pequeno exército. Oficiais e soldados recobram a esperança de vitória, ante aquele exemplo de confiança. O primeiro passo é atacar os ingleses que sitiam Orléans. A cidade é libertada. Depois de coroar o príncipe em Reims, Joana participa de uma frustrada tentativa de retomar Paris. É ferida e afastada do campo de luta. O próximo objetivo é libertar Compiègne, cercada pelos borgonheses. Outro insucesso. É aprisionada e vendida aos ingleses. Levada a Rouen, acusam-na de ser herege e feiticeira. Carlos VII nada faz para salvá-la. Joana é condenada à fogueira, onde morre protestando inocência. Em 1436 Paris é libertada e, após trinta anos de domínio estrangeiro, a Normandia volta aos franceses (1450). É o fim da Guerra dos Cem Anos.




JOANA D'ARC
  
é um fascículo (capítulo 23) da coleção encadernável 
GRANDES PERSONAGENS DA HISTÓRIA UNIVERSAL
Volume II, editado pela

ABRIL CULTURAL

com Copyright Mundial, em 1971, de
ARNOLDO MONDADORI EDITORE, Milão, Itália 

e Copyright para a língua portuguesa, em 1971 da
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL







quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O VELHO PALÁCIO DA LUZ

     De uns tempos a esta parte, convencionou-se chamar ao velho casarão da Praça General Tibúrcio, que serve de sede ao governo cearense, Palácio da Luz. O nome é bonito, não há dúvida, inspirando-se no glorioso apelido que o Ceará mereceu por ter sido o arauto da emancipação dos escravos, - Terra da Luz. Aliás, é moda batizar os paços da governação pelo Brasil afora com títulos tradicionais ou impressionantes: Palácio dos Campos Elíseos em S. Paulo, da Liberdade em Belo Horizonte, da Aclamação da Bahia, dos Leões em S. Luís, do Ingá em Niterói, de Karnak em Teresina, o que lembra o velho Egito, da Alvorada em Brasília em outros.
     A sede do governo do Ceará, que já suportou um bombardeio de artilharia de 16 para 17 de fevereiro de 1892, quando foi deposto o general José Clarindo de Queiroz, um assédio de barricadas populares na deposição do Dr. Antônio Pinto Nogueira Acióli, em 24 de janeiro de 1912, e um tiroteio violento em 1914, abriga há mais dum século os representantes do poder público. Começou sendo um casarão particular, fora de portas, diz João Brígido, pois a cidade se compunha, então, de Praça do Conselho, depois da Sé, de umas quatro ruas, sendo uma, a Direita dos Mercadores, ao longo do Pajeú até a praia, e da Praça Carolina, mais tarde do Mercado, do Comércio e José de Alencar, que não chegava até aquele ponto. Edificou-o para sua residência particular o capitão-mor "de tijolo de coco e barro extraído das imediações da fortaleza; os rebocos foram de cal recebida do Aracati, donde primitivamente também vinha a telha".
     Em 1801, quando o referido capitão-mor faleceu no cargo de tesoureiro da Fazenda Pública, achava-se em débito de avultada soma para com esta. Por este motivo, a Junta de Fazenda penhorou-lhe o prédio e o vendeu à Câmara Municipal precisada de sede, pela grande quantia na época de 800 mil réis, servindo de fiador na transação, porque a referida Câmara não dispunha no momento de dinheiro em espécie, um dos homens mais ricos e prestigiosos da capitania, o capitão-mor dos Inhamuns, José Alves Feitosa.
     O Senado da Câmara viu-se obrigado a criar um imposto especial para pagar a sua nova casa. Foi o chamado Subsídio das Águas Ardentes, "que consistia, refere o historiador já citado, em 4 mil réis sobre pipa importada desse precioso líquido, que, ainda em 1814, em ata de sua sessão, dizia o Senado, ser objeto de luxo. Vinha de Pernambuco". Conseguia-se um palácio à custa da cachaça.
     O casarão ocupava a esquina da rua denominada do Rosário, que corre entre ele e a Igreja dessa invocação, sobre o terreno em declive para o Vale do Pajeú, tendo como sua dependência toda a área compreendida entre ele e as ruas do Rosário e antiga do Cajueiro. Em julho de 1803, o ouvidor Cabral a mandou cercar com altas estacas de pau-ferro, espontadas e seguras com travessas de madeira pregadas a prego. Nelas se abria um portão de tábuas, com ferrolho e chave, protegido por um tejadilho. A obra, terminada em dezembro, custou 90 mil réis e delimitou o perímetro em que hoje se levantam os corpos da edificação, terraços, pátios, jardim e quintal do Palácio da Luz, uma quadra inteira na parte central e mais importante da cidade de Fortaleza. No tempo do futuro marquês do Aracati, João Carlos de Oyenhausen e Grevenburg, os soldados da guarda, mal pagos e famintos, pulavam a cerca para furtar as goiabas do governador...
     Antes de vir para o solar do capitão-mor Viana, a Câmara ocupava uma casa da antiga Praça do Conselho, edificada entre 1721 e 1727 por 400 mil réis, tirados do imposto dos açougues ou talho das carnes pelo governador Manuel Francês. Nela residiram alguns governadores da capitania e foi vendida, depois, ao mestre régio Ávila por 90 mil réis. Sempre maus os negócios oficiais. Devido a essa Venda, eles que, antes, assistiam no quartel da fortaleza, passaram a habitar uma casa de terraço de tijolo e grandes portões, ao lado do Mercado de Cereais, que foi demolida entre 1928 e 1930, para aumento deste. Deitava para a Rua Direita dos Mercadores, do Comércio, de Baixo, do Conde d'Eu e Sena Madureira, que todos estes nomes teve no decurso do tempo. Pertencia a Raimundo Vieira da Costa Perdigão e rendia de aluguel 40 mil réis por ano. Imagine-se se tivesse sido congelado por uma lei do inquilinato, que beleza! Ao mesmo foi mais tarde adquirida.
     Em 1809, a Câmara recebeu-a em troca da do capitão-mor Viana. Para esta vieram os governadores; para aquela foram os edis, que dali somente sairiam para o sobrado de Francisco José Pacheco de Medeiros, o famoso Pachecão, após a independência, nele permanecendo até há poucos anos. Esse último paço municipal foi posto abaixo para o alargamento da Praça do Ferreira e construção dum abrigo de cimento armado, espécie de Tabuleiro da Baiana.
     Ocuparam o Palácio da Luz desde 1809 todos os capitães-mores e governadores da capitania do Ceará Grande, presidentes da província e comandantes das armas, presidentes, interventores e governadores do Estado. A lista é longa, pontilhada de homens notáveis como Manuel Inácio de Sampaio, Pedro José da Costa Barros, padre José Martiniano de Alencar, Manuel Felizardo de Sousa e Melo, brigadeiro José Joaquim Coelho, padre Vicente Pires da Mota, José Bento da Cunha e Figueiredo, Diogo Velho Cavalcânti de Albuquerque, Heráclito Graça, o barão de Catuama, o barão de Sobral, Miguel Calmon du Pin e Almeida, Antônio Caio da Silva Prado e Jerônimo Rodrigues de Morais Jardim, sem falar nos do período republicano.
     Compunha-se o prédio, ao princípio, somente da parte térrea, na esquina fronteira à Igreja do Rosário, onde durante muitos anos funcionou a Secretaria do Interior e, depois, se instalou a Secretaria do Governo, bem como da parte que lhe seguia até a cerca de pau-a-pique já referida. Fez-lhe obras Barba Alardo em 1811. Em 1839, o presidente João Antônio de Miranda aumentou a edificação até a Rua de Baixo, construindo o grande salão central e a parte assobradada que deita para a mesma. Em 1844, o tenente-coronel Inácio Correia de Vasconcelos levantou o terraço que se segue ao sobrado, perlongando a referida rua. Em 1854, o padre Pires da Mota edificou a sala de jantar, unindo-a por alpendradas à ala primitiva e por um belo terraço ajardinado, com painéis de azulejos e estatuetas de louça do Porto, ao terraço, de Vasconcelos. Em 1878, José Júlio de Albuquerque Barros, barão de Sobral, fez o passadiço coberto e com rótulas que completa a moldura do pátio interno, dando-lhe um ar conventual, tanto que, visitando-o, em 1913 ou 1914, Paul Adiam julgou, como escreveu, achar-se em um mosteiro antigo. Eis o que diz no fim do último capítulo de "Les visages du Brésil": Au palais du Président, il est un vieux cloitre rose et Mane, dallé de céramiques claires.
     Afinal, outras modificações de pouca monta foram levadas a efeito em algumas das administrações republicanas. Do mobiliário antigo, estragado em grande parte pela metralha em 1892, havia ainda até 1929 alguns dunquerques de espelho, com tampo de mármore, jarrões de porcelana e grandes espelhos de molduras douradas no salão, e toda a guarnição da sala de jantar em nogueira esculpida. Depois de 1930, tudo isso desapareceu. Quod non fecerunt barbari fecerunt Barberini... E os Barberini, sobretudo, das intervenções, não foram poucos...
     Em 1811, quando esteve de passagem pelo Ceará, o viajante inglês Henry Koster frequentou as reuniões que dava no casarão do capitão-mor Viana, recentemente trocado com a Câmara Municipal, o governador Luís Barba Alardo de Menezes. Eram pequenas recepções improvisadas, com chá, café, conversa e jogos de cartas, que faziam passar o tempo agradavelmente. Nas datas solenes, ao pé do retrato do príncipe regente de Portugal, sob um rico dossel, o governador de grande uniforme, recebia num estrado alto as homenagens das pessoas gradas e, à noite, dava-lhes um jantar de gala, em que tudo era "excelente e adequado". Acrescenta Koster que esse administrador construíra a parte central do paço, empregando nessa obra trabalhadores índios, aos quais pagava a metade do que custavam os braços livres. Era, então, o palácio o único edifício assoalhado em toda a vila.

     Longe vão esses bons tempos. Em nossos dias, apesar do nome pomposo e ilustre, o Palácio da Luz não corresponde mais ao ambiente em que se encontra. A vila antiga é uma cidade moderna, viva e bela, de mais de 300 mil habitantes, uma das principais e melhores do País. As edificações de 1808, 1811, 1839, 1854 e 1878 não se integram mais no sentido e na forma de viver da atualidade. O velho Palácio da Luz, carregado de tradição e de história, não está mais de acordo com a esplêndida capital onde se encontra. Isto é uma grave ameaça que pesa sobre ele, porque em nossa terra ninguém sabe conservar a alma das coisas, há mesmo o desprezo, senão o ódio, pelo que chamam velharias. E, ao invés de construírem um paço novo, adequado a seus fins e ao ambiente, destinando o antigo, devidamente restaurado, a serviços públicos de natureza educativa ou cultural, sem dúvida um dia porão abaixo as veneráveis paredes que abrigaram tantas figuras ilustres do nosso passado e resistiram impávidas aos canhões La Hitte de 1892. Perderia Fortaleza um edifício desgracioso e velho, mas impregnado, para os que se habituaram a vê-lo desde a mais tenra infância e a ouvir falar dele, da mais viva e humana simpatia. Ele por si só representa uma peregrinação ao passado, dessas que somente podem realizar os que aprenderam a compreender com Maurício Barrés o romantismo sem par das coisas mortas.





- Gustavo Barroso em À MARGEM DA HISTÓRIA DO CEARÁ, editado em 1962 pela UFC, tendo sua segunda edição, de onde foi copiado este capítulo, em 2004, sob os auspícios da FUNCET-PMF.

Gustavo Dodt Barroso, que nasceu em Fortaleza em 1888, foi advogado, político, contista, museólogo, folclorista, ensaísta, cronista, arqueólogo, memorialista e romancista. Membro da Academia Brasileira de Letras, foi o criador do Museu Histórico Nacional, em 1922, por ocasião das comemorações do Centenário da Independência, iniciativa do então presidente Epitácio Pessoa, tendo dirigido a instituição desde a fundação até a sua morte, em 1959.
























segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A SAGA DO PROFETA


     Em quase todo o mundo, das florestas crepusculares do norte da Europa às planícies douradas do norte da China, as primeiras décadas do século VII foram marcadas pelo som de espadas em combate e pelo grito de exércitos em guerra. Na Britânia, há muito abandonada pelas legiões de Roma, principelhos lutavam entre si por território e supremacia. Invasores visigodos haviam tomado boa parte da Espanha e os lombardos expandiam-se na Itália, ameaçando a própria Roma. Na Índia, o resplandecente Império Gupta entrara em colapso; cerca de setenta potentados locais dividiam agora o subcontinente, formando um mosaico de antagonismos. A China estava mergulhada em tumulto político, com um imperador impopular que tentava em vão manter-se no trono, diante de dezenas de rebeliões que explodiam ao mesmo tempo.
     E nas velhas terras do Oriente Médio dois grandes estados imperiais confrontavam-se, com inveja e suspeita mútuas. O Império Bizantino — paladino do cristianismo, herdeiro da antiga Roma — mantinha sob controle o Mediterrâneo oriental. Embora enfrentasse muitos problemas no Ocidente, provocados pelos invasores germânicos, Constantinopla ainda era a sede da maior potência do mundo, senhora da Anatólia, do Egito, da Síria e de toda a Europa oriental ao sul do Danúbio. No início do século VII, os cidadãos de Constantinopla acreditavam firmemente que moravam no coração da civilização.
     Essa convicção era contestada pelo principal rival de Bizâncio, o Império Persa. De Ctesifonte, sua capital junto ao rio Tigre, no berço mesopotâmico da cultura humana, os soberanos persas controlavam um território que ia das fronteiras de Bizâncio às estepes da Rússia e às montanhas do Afeganistão. A amplitude de seu poder e o esplendor de sua corte lembravam os dias do primeiro Império Persa, mil anos antes. O mesmo se podia dizer de seu conflito com o Ocidente. Ao longo do tempo, os regimes persas haviam lutado contra gregos, depois contra romanos. Agora, a dinastia Sassânida estava enredada num debilitante e intermitente esforço de guerra contra Bizâncio, disputando o controle do Oriente Médio.
     Enquanto as grandes potências alimentavam as chamas de seu antagonismo, um clima de descontentamento reprimido espalhava-se pelas populações submetidas. Esse sentimento expressava-se parcialmente em contendas religiosas. A Igreja Cristã começara a dissipar seu vigor juvenil, gastando suas energias em disputas doutrinárias. Irrompiam conflitos entre cristãos e judeus, com assassinatos e represálias de ambas as partes. As perspectivas assumiam cores apocalípticas. "Quando vir reinos lutando entre si", afirmava um dito popular judeu da época, "então procure as pegadas do Messias."
     De fato, logo apareceria um Messias, embora a libertação que traria pouco se assemelhasse ao que os judeus imaginavam — eles jamais o reconheceriam como um mensageiro de Deus. Numa cidade comercial do oeste da Arábia, na margem pedregosa e seca do mundo civilizado, um obscuro mercador de meia-idade chamado Muhammad ibn Abdulla — Maomé — foi tocado pela inspiração divina e começou a pregar. Sua mensagem era simples: submissão à vontade de um deus único e universal, promessa de um dia do juízo, com recompensa ou punição, e, caridade para os pobres. Mas as repercussões dessa mensagem foram profundas: as palavras de Maomé, apanhadas no ar por seus companheiros árabes, ressoariam por todo o hemisfério e abalariam até os alicerces a ordem existente, mudando a balança do poder no Oriente Médio e reordenando as linhas da política mundial, daqueles dias até os tempos modernos.
     O islã explodiu sobre o mundo com a força súbita de um furacão no deserto. Com o grito de Allahu akbar — Deus é grande — atravessando as areias, exércitos árabes começaram a penetrar na Síria e na Mesopotâmia em 633. Em uma década, tinham conquistado a Pérsia e o Egito e tomado a cidade santa de Jerusalém. Em 674, estavam às portas de Constantinopla. No início do século seguinte, as bandeiras do islã tremulavam da Espanha, no Ocidente, à Índia, no Oriente — uma extensão de território que tornava pequenos todos os impérios anteriores.

Menos de um século depois que o profeta Maomé proclamara a nova fé islâmica, exércitos muçulmanos haviam conquistado um império que se estendia por 6 mil quilômetros, do oceano Índico ao Atlântico. Os primeiros quatro califas, governantes muçulmanos que sucederam Maomé, enviaram forças árabes para dominar a Síria, o Iraque, a Palestina, o Egito e boa parte da Pérsia. Os califas da dinastia dos Omíadas (661-750) estenderam o império para além do rio Indo e da fabulosa Samarcanda, até as fronteiras da Índia e da China; no norte da África, avançaram até o Marrocos e atravessaram a Espanha. Em suas conquistas, os exércitos árabes destruíram o Império Sassânida da Pérsia, mutilaram severamente o Império Bizantino e espalharam o islamismo por três continentes.

     Essa expansão triunfal e rápida do poder árabe foi tão surpreendente em sua amplitude quanto em sua imprevisibilidade. Nada na natureza do povo e da terra da Arábia parecia sugerir capacidade de conquistar com fervor o mundo. Poucas regiões na Terra eram tão destituídas de vantagens naturais. A península Arábica parecia um apêndice esquecido entre a África e a Mesopotâmia — mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados de areia, cascalho e lava, vincados por leitos secos de rios e salpicados de quando em quando por oásis de tamareiras. Uma cadeia de montanhas em forma de L ao longo das costas sul e oeste retinha uma modesta precipitação anual e oferecia condições de vida até convidativas. Mas a maior, parte da península era inteiramente seca e terrivelmente quente. Anos passavam-se antes que uma gota de chuva caísse sobre o deserto de Nafud, no norte, com suas dunas de 90 metros de altitude, ou no vasto Rub al-Khali — o Lugar Vazio —, no centro. Quando a chuva finalmente chegava, caía em torrentes, causando enchentes súbitas e devastadoras. E não havia nenhum rio permanente.
     A população vivia ao deus-dará, em povoados à sombra dos oásis, ou em tendas de pastores e condutores de camelos nômades. Não sobreviveram indicações claras para contar às futuras gerações de onde teriam vindo os habitantes da Arábia, embora fossem obviamente de origem semítica. A tradição islâmica traçou sua linhagem até Abraão, o patriarca ancestral de árabes e de judeus.
     Em algum momento do segundo milênio antes de Cristo, diz a história, Abraão deixou sua família na cidade de Ur, na Mesopotâmia (chamada de Ur dos caldeus na Bíblia), e foi viver na Palestina. Sua idosa esposa Sara parecia ser estéril e assim, a pedido dela, Abraão casou-se com uma escrava chamada Agar, que lhe deu um filho, Ismael. Alguns anos depois, Sara deu à luz um filho, Isaac. Como esse segundo nascimento causasse atrito entre as duas mulheres, Abraão levou Agar e Ismael para o vale de Meca, uma parada de caravanas isolada, nas montanhas ocidentais da Arábia. Ali deixou-os com provisões e voltou para Sara. Não demorou muito para Agar desesperar-se, pois estava acabando a água, mas Ismael arrastou o calcanhar na areia e viu brotar uma fonte de águas claras e frescas. A fonte tornou-se o poço de Zem-Zem, que mais tarde seria um marco para os peregrinos muçulmanos A nova fonte atraiu outros povoadores, dando origem à cidade de Meca. Abraão visitou Agar e seu filho mais velho e, com Ismael, construiu o santuário que séculos depois se tornaria o lugar mais sagrado do islamismo, a Caaba, encravando em sua parede a Pedra Negra sagrada de origem meteórica.
     Ismael casou-se com uma mulher dos novos povoadores. De acordo com a tradição, desse casamento nasceram os árabes, enquanto os filhos de Isaac viriam a ser os israelitas. Alguns dos descendentes de Ismael desceram para a extremidade sul da península e se estabeleceram entre o povo que vivia nas montanhas escarpadas, com até 3 660 metros de altitude, onde hoje é o lêmen. Ali encontraram condições mais amenas. As monções de verão regavam a terra com relativamente generosos 500 a 750 milímetros de chuva por ano, umidade suficiente para sustentar a agricultura. Os habitantes captavam a água em reservatórios e levavam-na, através de canais de irrigação, para as plantações em terraços nas encostas, onde cresciam trigo, cevada, melões, amendoeiras e outros alimentos básicos para uma vida sedentária próspera.
     No correr dos séculos, os vilarejos se transformaram em cidades e estas em reinos. Palácios de pedra de grande luxo e sofisticação surgiram entre os picos das montanhas, inclusive uma cidadela em Sana, cercada de altas muralhas. Vastas obras de irrigação transformaram a paisagem. Por volta de 750 a.C., o povo de um reino chamado Sabá construiu em Marib, sua capital, uma enorme represa que controlaria o fornecimento de água para a região nos mil anos seguintes.
     Além da agricultura, os árabes do sul tinham outra fonte de riqueza. A região estava na junção de várias rotas importantes de comércio, por onde os objetos de luxo do Oriente eram atravessados em barcas para os impérios do Mediterrâneo. As dhows árabes, com suas velas latinas triangulares — um tipo de embarcação que sobreviveria quase sem modificações até os tempos modernos —, chegavam do oceano Índico com gemas, tecidos e especiarias da Índia e da China. Algumas talvez atravessassem as passagens estreitas entre o lêmen e a Etiópia, entrando no mar Vermelho. Mas para evitar as áreas de conflito entre bizantinos e persas, a maioria dos mercadores passava suas mercadorias para caravanas na entrada do mar Vermelho e seguia por terra para o norte, pela trilha que se estendia ao longo das montanhas até a Palestina e a Síria.
     Essas caravanas eram formadas por grandes grupos de pessoas e animais, com até trezentos mercadores, condutores e guardas, além de 2500 camelos. O valor dos bens que carregavam era incalculável. A Bíblia registra a visita da caravana da rainha de Sabá à corte do rei Salomão, em Jerusalém, com uma quantidade de ouro, pedras preciosas e perfumes que os judeus jamais haviam visto. O rei, encantado, "deu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou e pediu"; inclusive, segundo certa tradição, um filho, fundador da dinastia que reinaria sobre a Etiópia.
     Apesar de todas as riquezas que vinham do Oriente, as mercadorias mais valiosas da Arábia durante séculos foram de origem local. Nas encostas secas do interior das montanhas costeiras do sul cresciam duas variedades de retorcidas e raquíticas árvores aromáticas. As resinas que exsudavam dos troncos — incenso e mirra—estavam entre os produtos mais preciosos do mundo antigo. Ambas tinham múltiplos usos: em perfumes e cosméticos, em unguentos medicinais, dissolvidas em vinho para compor remédios, e em rituais religiosos. O incenso seco e pulverizado era jogado nas brasas dos altares de sacrifício para que as oferendas subissem aos céus numa nuvem de fumaça perfumada. Os romanos usavam incenso e mirra nas cremações para disfarçar o odor de carne queimada.

Os administradores árabes que governaram os países conquistados cunharam uma série de moedas - algumas adotadas do dinheiro local, outras puramente muçulmanas. A moeda de ouro da extrema esquerda retrata em estilo bizantino o califa omíada Abd al-Malik, que segura a Espada do Islã, símbolo do poder árabe. A moeda de prata abaixo dela, um dirham cunhado na Pérsia, traz escrito em árabe o nome do governador al-Hajaj ibn Yusuf, mas a imagem é a de um imperador sassânida. A moeda de ouro da direita, mostrada de frente e de verso, traz escritos em árabe, em vez de imagens. Parte da inscrição da frente diz:"Não há outro Deus, mas Deus apenas". A margem do verso anuncia que a moeda foi cunhada em Damasco no ano 78 do calendário islâmico (697-698 d.C.)

     Com o controle firme do comércio de caravanas e o monopólio da produção de resinas aromáticas, o sul da Arábia passou da prosperidade à opulência. Cronistas gregos e romanos dos dois primeiros séculos da era cristã maravilharam-se com essa riqueza. O historiador Estrabão não economizou adjetivos ao descrever a "cara magnificência" de seus palácios, com suas estátuas de alabastro e interiores adornados de joias. Estudiosos, baseados em rumores duvidosos, produziram volumes e volumes sobre sua geografia e seu povo. Quando Ptolomeu de Alexandria, o mais eminente cartógrafo de seu tempo, fez um mapa da península, batizou a região com o nome de Arabia Felix — Arábia Afortunada.
     Porém, poucos dos refinamentos da civilização penetravam no interior estéril da Arábia. Ali era o território dos beduínos, os verdadeiros nômades do deserto, para quem a vida continuava a mesma de séculos atrás: uma ida e vinda sem fim entre as pastagens e os oásis, em um ritmo tão previsível quanto a marcha das estações.
     Nessa terra ressequida a vida era muito dura; e possível, em grande parte, graças a um animal notável: o camelo. Além de servir aos beduínos como meio de transporte, animal de guerra e unidade de troca, o camelo fornecia ainda alimento e matéria-prima. Um espécime adulto saudável podia viajar até 100 quilômetros por dia através do deserto, levando cargas de até 180 quilos. Sobrevivia por três dias sem água no calor sufocante do verão e até mais, no inverno. Os beduínos faziam tendas e cordas com o pêlo, transformavam a pele em artigos de couro, usavam o esterco como combustível, bebiam o leite e eventualmente comiam a carne. Quantias grandes — o dote de uma noiva ou um pagamento para resolver uma rixa entre famílias — eram computadas em quantidades de camelos.
     A tamareira, cujo fruto era obtido pelo comércio com os habitantes dos oásis, constituía o outro esteio da vida dos beduínos. Além de ser um alimento de fácil conservação, as tâmaras fermentadas forneciam cerveja; seus caroços, moídos, serviam para alimentar os camelos e as frondes eram usadas para fazer cestos ou como material de construção.
     Apesar dos hábitos independentes, a sociedade beduína estava fortemente unida por lealdade e alianças tribais. Os membros de um clã sempre acampavam juntos, reunindo-se em torno de oásis e poços do clã na estação seca e indo para a mesma área de pastagem do deserto quando as chuvas de inverno atapetavam as areias com um verde magro e fugaz. Se tivessem um ancestral comum — e muitos árabes podiam traçar sua linhagem por diversas gerações —, vários clãs reunidos formavam uma tribo. Os Banu Harith descendiam de Harith; os Banu Bakr, de Bakr.
     Nada era mais importante para um árabe do que a fidelidade à tribo, ao mesmo tempo lei e religião. "Sê leal a tua tribo", cantava um bardo do deserto, "o direito dela sobre seus membros é forte o suficiente para fazer um marido desistir de sua esposa". Em troca de fidelidade, a tribo comprometia-se a proteger seus membros e socorrê-los em caso de necessidade. Insultar um dos membros era insultar todos e exigia vingança em espécie. Contudo, dentro da tribo, cada membro cultivava um profundo senso de independência e igualdade. Não havia cidadãos de segunda classe no deserto: todos estavam sujeitos às mesmas leis da sobrevivência e aos laços inquebrantáveis dos costumes e da linhagem. Até mesmo a posição de xeque era assumida por acordo dos homens da tribo e não por direito hereditário.
     A dura vida do deserto levava inevitavelmente à competição entre as tribos pelo número limitado de poços e áreas de pastoreio. Um beduíno poderia matar seu último camelo para alimentar um visitante estranho, pois assim exigia o código do deserto; mas se precisasse de outro camelo, simplesmente tomava-o. Bandos armados roubavam animais dos acampamentos rivais e assaltavam gente extraviada ao longo das rotas de caravanas. O objetivo era a pilhagem, não o combate. Sangue exigia sangue na ética tribal e derramá-lo podia desencadear uma rixa que ninguém desejava. Mesmo assim, surgiam disputas tribais a todo momento. Uma das mais famosas, celebrada em prosa e verso, explodiu no século V entre as tribos Taghlib e Bakr e durou quarenta anos. Sua causa: um chefe Taghlib ferira acidentalmente a fêmea de camelo favorita de uma matrona Bakr.
     Tais incidentes forneciam a matéria-prima para a forma de arte mais desenvolvida dos árabes do deserto. Sempre em movimento, sem possibilidades de experimentar a arquitetura ou as artes visuais, canalizaram sua energia criativa em uma única direção: a palavra falada. O árabe clássico do deserto era um meio de comunicação extraordinariamente expressivo. Cantada junto ao fogo, à noite, sob o majestoso dossel de estrelas do deserto e a vaga sombra das dunas, a solene prosa rimada da saga beduína cativava a alma dos ouvintes. "A beleza de um homem está em sua eloquência", dizia um ditado. E qualquer árabe aquinhoado com esse dom era visto com admiração, como se possuído por alguma força sobrenatural. Assim aconteceria com as palavras proferidas por Maomé, cujo poder ressoante seria considerado como um milagre, prova conclusiva de sua origem divina.
     Orgulhosos de sua independência e habilidade nas armas, os nômades do deserto viam com desprezo seus primos sedentários dos oásis, mas não poderiam sobreviver sem eles. Os oásis eram os pomares e os mercados do deserto, fornecendo damascos, laranjas, cana-de-açúcar, melancias, romãs e, é claro, os produtos das tamareiras. Alguns oásis eram paradas de caravanas, com bazares onde os beduínos compravam armas, ferramentas, recipientes, roupas e muitas outras coisas necessárias à vida no deserto. Em troca, ofereciam camelos, leite, couro e proteção contra atacantes — ou melhor, faziam o acordo de não atacar o lugar. Surgiam alianças entre certos oásis e determinadas tribos e um xeque do deserto talvez até mantivesse uma moradia em seu oásis de adoção.
     As crenças no deserto tendiam à adoração de espíritos. Dizia-se que a paisagem era assombrada por demônios chamados djins. Havia espíritos malignos, contra os quais era preciso se precaver com amuletos e magias, e deuses tribais que exigiam prova de obediência. A Lua era vista como um espírito benevolente e várias estrelas eram identificadas com divindades dos clãs. Veneravam-se também certos aspectos da natureza: árvores, cavernas, fontes do deserto, rochas de aparência incomum. Alguns atingiam o estatuto de santuários, em cujos recintos toda vida era considerada sagrada e todas as espadas eram mantidas embainhadas.

Abrigando a Pedra Negra sagrada - um meteorito - e coberta por panos de lã com listras em ziguezague, a Caaba tinha cerca de 3,5 metros de altura quando foi reconstruída, em 608. A porta elevada servia para dificultar a entrada de intrusos. As paredes eram feitas de camadas alternadas de pedra e madeira, método de construção pouco usual na Arábia. Como em Meca não havia árvores, a madeira veio com certeza de longe, provavelmente de um navio naufragado nas costas do mar Vermelho, em algum lugar a oeste da cidade.

     O santuário mais importante era a Caaba, em Meca, com sua Pedra Negra sagrada. Meca surgira como uma parada de caravanas numa ravina árida do Hedjaz, a região ocidental montanhosa da Arábia, e apesar de seus arredores desérticos, mantinha um ar cosmopolita e vivaz. Todos os anos as caravanas atravessavam-na, vindas dos bosques de incenso da Arábia meridional e dos portos do golfo Pérsico. Os visitantes compravam provisões — e talvez camelos novos — e deixavam em troca uma boa quantia de prata. Além disso, os habitantes de Meca realizavam um festival religioso anual que atraía milhares de nômades do deserto.

                                                      A Meca de Maomé

No início do século VII, quando Maomé vivia em Meca como comerciante, a cidade era pequena, mas apinhada, com cerca de 3 mil habitantes, a maioria vivendo num conjunto de casas de teto plano, feitas de pedra e tijolos de barro. Meca situava-se em um vale seco e arenoso, praticamente cercado por uma dupla cadeia de colinas desérticas. Na verdade, a única coisa que tornava a vida possível nessa paisagem ressequida era a água que brotava do poço Zem-Zem, no centro de Meca. Ao lado do poço estava o modesto santuário conhecido como Caaba, uma estrutura semelhante a uma caixa, dedicada, na época, às divindades locais. A Caaba se tornaria o lugar mais sagrado da nova religião islâmica, da qual Maomé seria o profeta.

Por ser um oásis, Meca constituía uma parada natural para as caravanas de camelos que levavam mercadorias do sul da Arábia para os bazares das grandes cidades da Síria e da Babilônia. A população local lucrava indiscutivelmente ao comerciar com as caravanas – e cobrar taxas para permitir que elas atravessassem a cidade -, bem como ao montar expedições mercantis próprias. E Meca já atraía os crentes que iam rezar na Caaba. Depois que a fé radiante de Maomé derramou-se sobre o mundo, enxames de peregrinos vinham conhecer a cidade onde o Profeta nascera.

As trilhas de caravanas convergiam de todas as direções para Meca. Bem no centro do oásis - um labirinto de ruas estreitas - estava a clareira com a Caaba e o poço de Zem-Zem.

     Os visitantes pechinchavam nos bazares da cidade, alegravam seus estômagos com carneiro assado e pilau e trocavam notícias com membros de clãs que retornavam de pastagens distantes ou de aventuras mercantis. Invariavelmente, parariam na Caaba para celebrar Hubal, a principal divindade do local, e os 360 ídolos menores que o santuário abrigava. (Há muito o povo se afastara do deus único de Abraão, para o qual o santuário fora erguido.) Em Zem-Zem, o poço encontrado por Ismael, os visitantes bebiam da água abençoada e depois subiam o monte Arafat, local de outro santuário. E sempre partiam com os bolsos mais vazios.
     O encontro anual das tribos e a algazarra festiva de vozes de toda a Arábia impunham um sentido fugaz de unidade cultural árabe. A cidade estava sob controle dos coraixitas, uma poderosa tribo do Hedjaz que adorava vários deuses. Outras crenças haviam penetrado na península, inclusive o monoteísmo de cristãos e de judeus. Conversos de ambas as religiões tinham-se estabelecido havia muito tempo no perímetro da Arábia, na Síria e nos antigos reinos da Arábia Meridional. Em épocas festivas, os visitantes relatavam as histórias bíblicas de Abraão, Moisés e Jesus, junto com as sagas de suas tribos. Na virada do século VII, Meca era uma das principais cidades da Arábia. Sua posição só fazia crescer com as disputas políticas além-deserto que interrompiam as tradicionais rotas de comércio.

Os beduínos negociavam com os comerciantes locais nas lojas sob arcadas de Meca, situadas a certa distância da Caaba (ao fundo). Na época de Maomé, os principais produtos eram roupas de lã, artigos de couro, como cintos, sandálias e selas, e utensílios usados pelas caravanas - odres e recipientes para água e óleo.

     O sul da península, no entanto, vinha passando por um período de declínio. Com a expansão do cristianismo no mundo ocidental, mudaram os costumes fúnebres. Os cristãos favoreciam o enterro em vez da cremação e a consequência foi uma queda na demanda de incenso. Usava-se ainda a resina com objetivos rituais e cosméticos, mas já não era necessária para disfarçar o odor das piras funerárias.
     O sul da Arábia viu-se envolvido também na disputa maior entre Bizâncio e a Pérsia. Nisso, a religião desempenhou papel fundamental. Igrejas cristãs surgiram na região ao longo dos anos e a maioria de seus membros e clero devia obediência espiritual a Constantinopla. (Havia também cristãos nestorianos, em conflito com a Igreja Bizantina.) Muitos judeus viviam ali como agricultores ou comerciantes e alguns árabes tinham-se convertido ao judaísmo, inclusive um príncipe iemenita chamado Dhu Nuwas. Preocupado com o poder crescente da Bizâncio cristã, Dhu Nu-was aliou-se à Pérsia. Bizâncio respondeu obrigando um de seus estados-satélites, a Etiópia, a invadir a península. Dhu Nuwas repeliu o primeiro ataque etíope, mas o segundo, em 525, foi forte demais para ele. Enquanto seu exército tombava, dizem as crônicas, o príncipe, em seu cavalo de batalha, "mergulhou nas ondas do mar e nunca mais foi visto".
     O ataque da Etiópia destruiu a economia da Arábia Meridional, que os invasores tentaram colonizar, com sucesso limitado. Durante sua estada, a grande represa de Marib rompeu-se e a agricultura local jamais se recuperou desse desastre. Por volta de 570, um exército etíope, com um comboio de elefantes, arrastou-se para o norte a fim de atacar Meca. De acordo com a tradição islâmica, foi derrotado por aves que o bombardearam com pedras quentes do fogo do inferno. (Outras fontes creditaram a derrota a uma epidemia de varíola.) Os futuros muçulmanos considerariam o Ano do Elefante como um símbolo da intervenção triunfante de Alá.
     Cinco anos depois veio outra invasão, dessa vez da Pérsia. Os etíopes, enfraquecidos e desmoralizados, cederam rapidamente. No meio século seguinte, o sul da península foi uma satrapia persa, até ser libertado pelo exército do islã.
     Tensões semelhantes atingiram o deserto do norte da península Arábica, onde os dois grandes impérios haviam instalado estados-tampões. Os Banu Ghassan, vindos do sul, eram vassalos bizantinos que ocupavam o interior da Jordânia e da Síria, inclusive Petra e Palmira. Em troca de um subsídio de Constantinopla, defendiam as fronteiras meridionais de Bizâncio dos assaltos cada vez mais ferozes de guerreiros beduínos. E serviam também de guardas de fronteira contra as forças da Pérsia. Mais para leste, os Banu Laikhm executavam papel semelhante em favor da Pérsia. As duas tribos estavam constantemente em guerra e suas batalhas tinham toda a maldade de uma rixa entre famílias. Ambas as tribos haviam-se convertido ao cristianismo, mas pertenciam a seitas cujas doutrinas se opunham ferozmente. Embora as questões pudessem parecer obscuras para os cristãos do futuro, eram consideradas fundamentais naquela época: os gassânidas eram monofisistas que acreditavam em um Cristo totalmente divino, enquanto os lácmidas eram nestorianos, defendendo a natureza dual de Cristo, ao mesmo tempo divina e humana.
     De qualquer forma, as duas tribos tinham muita coisa em comum: aos olhos de bizantinos e persas, eram indóceis e irrequietas. No início do século VII, o imperador bizantino Heráclio conquistou a inimizade dos gassânidas ao cortar o subsídio governamental. E a Pérsia, alarmada com os modos independentes dos lácmidas, instalou seu próprio governo no território. Em 604, o resultado foi a invasão da região dos lácmidas por outros beduínos, que empurraram as fronteiras do Império Persa na região.
     Enquanto os reinos da fronteira norte declinavam, as tribos do sul começavam a prosperar. Na região relativamente estável do Hedjaz floresceram os empreendedores comerciantes de Meca. Os líderes coraixitas da cidade, astutos nos negócios e na diplomacia, garantiram tratados de comércio com todos os quadrantes: Pérsia, Bizâncio, Etiópia e lêmen. Um mercador podia contar com um lucro de cem por cento em cada caravana. E assim jorrava dinheiro, junto com atitudes e comodidades do mundo exterior. Foi nesse clima de crescente prosperidade e mudança social que o profeta Maomé começou a pregar submissão a um único deus.
     Poucos detalhes seguros sobre o início da vida de Maomé passariam para as gerações futuras, mas suas linhas gerais seriam transmitidas com reverência por lendas e pela tradição oral. Ele nasceu em Meca por volta de 570 — no Ano do Elefante, diz a tradição, quando as tropas etíopes marcharam contra a cidade. Sua família, que pertencia ao clã dos hachemitas, ramo da tribo coraixita, era respeitável, mas não estava entre as mais ricas. Abdulla, pai de Maomé, morreu pouco antes de seu nascimento, deixando para a mãe uma pequena herança constituída por um escravo, cinco camelos e umas poucas ovelhas. Como era costume, ela enviou o filho órfão para viver no deserto com uma família de beduínos, pois se acreditava que a vida dura e simples promovia a saúde e o caráter. Quando Maomé estava com 5 anos, ela o trouxe de volta para casa, mas morreu logo depois; o avô do menino encarregou-se de cuidar dele, mas também morreu dois anos depois.
     Felizmente, Maomé tinha um estoque quase inesgotável de parentes. Foi então morar com Abu Talib, um tio que sustentava uma grande família com seu trabalho no negócio de caravanas. Abu Talib assumiu a educação do menino, ensinando-lhe a delicada arte de comprar, vender e cuidar da criação. Segundo a tradição, aos 12 anos Maomé viajou com o tio até a Síria, onde travou relações amistosas com um monge cristão que logo percebeu o potencial messiânico do menino. Na verdade, Maomé pouco se distinguia dos meninos árabes. Não havia nada que o marcasse como o profeta cuja mensagem levaria ao nascimento de uma grande religião. À medida que crescia, Maomé começou a revelar várias virtudes que, embora simples, o distinguiam. Inteligente e trabalhador, logo ganhou reputação de justo e confiável nos negócios, inspirando lealdade e confiança. Apesar da bela aparência — compleição mediana, tez rosada, grandes olhos pestanudos, cabelo preto levemente encaracolado, espessa barba negra, andar firme e resoluto,— ainda era solteiro aos 25 anos de idade.
     Abu Talib apresentou ao rapaz uma rica viúva coraixita de 40 anos, chamada Cadija. Mulher de negócios astuta que equipava caravanas, ela contratou Maomé como seu agente para levar um comboio para a Síria. Pouco depois, casaram-se e tudo indica que foi uma união feliz. Cadija arrancara Maomé de uma situação relativamente modesta para elevá-lo a uma posição de riqueza e responsabilidade. Deu-lhe seis filhos: quatro meninas sadias e dois meninos que morreram na infância. Enquanto Cadija viveu, ele não tomou outras esposas, embora fosse costume. Contudo, Maomé não estava inteiramente satisfeito. Sob sua aparência sólida e discreta havia correntes de ardente sensibilidade. Todos os anos, retirava-se para uma caverna do monte Hira, no deserto, para meditar e orar durante dias sem fim.

                                                       As delícias da música


A música floresceu como nunca durante o período de ascensão do islã, como atestam as figuras abaixo. Uma parte delas era solenemente litúrgica, como os cantos gregorianos da Igreja Cristã. Mas a maior parte, em especial no mundo islâmico, era secular e alegre – melodias vivazes tocadas em casamento e festivais, ou executadas por acrobatas e palhaços em seus números de rua. A música do islã enriqueceu-se com a disseminação de vários instrumentos novos, a maioria originária da Pérsia, da Arábia e de outros países orientais. Dessas regiões emergiram não menos que 32 variedades de alaúde, 28 de flauta e 22 de oboé. A música também era uma paixão na longínqua China; os soberanos da dinastia Tang importavam melodias e músicos da Índia, Birmânia e Coréia. Essa arte tornou-se tão popular na China que as orquestras imperiais da época contavam com até oitocentos músicos.






     Muita coisa perturbava Maomé. O início de sua vida fora pleno de tragédias e a morte dos filhos deixara-o sem herdeiros. Mas além dessas preocupações puramente pessoais, outras questões mais amplas absorviam-no. Em toda a cidade, nos bazares e santuários de Meca, as antigas virtudes tribais de honra e generosidade estavam em declínio. Os laços de lealdade familiar gradualmente davam lugar aos padrões de ganância do comércio. A cobiça substituía a coragem como ordem do dia. O influxo de riquezas para os cofres de Meca provocava enormes disparidades entre ricos e pobres, negando os velhos ideais de liberdade e igualdade. Maomé, com seus anos de luta como primo órfão e pobre de uma tribo poderosa, conhecia muito bem as indignidades da cidadania de segunda classe.
     Igualmente perturbadora era a maneira arrogante com que os governantes de Meca estavam usando a Caaba e suas hordas anuais de peregrinos como fonte de lucro. Com seus 360 ídolos, o santuário transformara-se num arremedo do verdadeiro sentimento religioso. Com frequência, seus recintos estavam congestionados com camelôs vendendo bugigangas e talismãs. Contra esse pano de fundo maculado, vinham do outro lado do deserto os acordes do monoteísmo de cristãos e judeus, com sua confessada compaixão pelos humildes e oprimidos. Um grupo de árabes locas, os hanifitas, também abraçou o conceito de uma divindade única e levava uma vida de abnegação. Talvez se pudesse encontrar na fé desses árabes um remédio para os males sociais de Meca.
     E assim Maomé deixava-se ficar em sua caverna do deserto, meditando sobre essas questões solenes. Então, numa noite de 610, durante o mês de ramadã, ele ouviu o tilintar de sinos. Uma voz incorpórea falou-lhe em tom majestoso — a tradição diria que era a voz do arcanjo Gabriel. "Recita!" — ordenou a voz. Maomé sentiu como se fosse agarrado por grandes mãos invisíveis e depois solto. Estava aterrorizado. "O que devo recitar?" — perguntou. A voz repetiu a ordem: “Em nome de teu Senhor Criador, que criou a humanidade de um coágulo de sangue, recita!”. Enquanto a voz continuava a falar da natureza de Alá, Maomé memorizava e recitava tudo que era dito. Por fim, o anjo retirou-se.
     Profundamente perturbado, Maomé disparou para casa e contou para Cadija o que ocorrera. Ficara louco? Estaria possuído por um djim maligno? Cadija confortou-o e chamou um primo mais velho, convertido ao cristianismo e sábio em assuntos religiosos. Não, disse o cristão, Maomé não ficara louco; ele recebera uma verdadeira revelação, semelhante à que Deus concedera a Moisés e aos profetas, e devia submeter-se a ela.
     Maomé aguardou outras visitas. Durante vários meses, o anjo reapareceu, tal como fizera na primeira Noite de Poder e Excelência. (Os futuros muçulmanos comemorariam aquela noite todos os anos, ficando acordados e orando até o amanhecer.) Gabriel anunciou ser Maomé "um mensageiro para instruir a humanidade". As mensagens divinas inundavam Maomé "como o romper da aurora", diria ele mais tarde, e deixavam-no abalado: "Nunca recebi uma revelação sem pensar que minha alma me fora arrancada".
     A mensagem do anjo seguia quase as mesmas linhas dos profetas bíblicos de séculos antes. Tratava-se de advertências terríveis contra a idolatria e da afirmação de um único deus — neste caso, chamado Alá. A reforma moral desempenhava papel central, com grande ênfase na caridade aos pobres. Alá aparecia como um vingador justo mas piedoso, pronto para punir a injustiça, mas perdoando generosamente quem abandonasse o mal e se submetesse a seus mandamentos. "Glorifica teu Senhor e pede-lhe perdão", declarava o anjo. "Ele está sempre disposto à clemência". Em seguida ocorria uma visão poderosa da vida após a morte, que poderia ser no jardim do Paraíso ou no Inferno abrasador, conforme o caso — e um anúncio do Dia do Juízo Final, quando se decidiria quem iria para onde: Quando a Terra tremer em sua última convulsão (...) então quem tiver feito um átomo de bem vê-lo-á, e quem tiver feito um átomo de mal vê-lo-á também.
     Assim revelou-se um dos princípios básicos do islã — que em árabe significa "submeter-se à vontade de Deus". Para o negociante de 40 anos encarregado de difundir esses princípios, a tarefa deve ter parecido tremenda. Contudo, com a voz do anjo ressoando em seus ouvidos, Maomé começou a disseminar a palavra de Deus — a princípio em segredo, falando para pequenos grupos em colinas remotas e residências particulares, longe dos olhares dos poderosos. Seus primeiros conversos vieram evidentemente do próprio lar: a esposa, um escravo favorito que libertara e seu primo Ali, filho de Abu Talib. Um mercador rico e amigo íntimo, Abu Bakr, tornou-se um dos primeiros seguidores. Maomé atraiu também alguns membros insatisfeitos de clãs menores e até alguns jovens ambiciosos das famílias mais influentes de Meca que estavam prontos para uma mudança social. Othman, um rapaz tranquilo de uma importante família coraixita, teria papel vital na disseminação do islã. O mesmo aconteceria com o obstinado Omar ibn al-Khattab, recrutado de um ramo menor coraixita. A mensagem do islã chegou ainda aos estratos mais baixos de Meca — os escravizados, os pobres, os despossuídos. Em 613, três anos depois de receber a primeira revelação, Maomé começou a pregar em público.


     À medida que Maomé ganhava seguidores, chamados muçulmanos (literalmente, aqueles que se rendem), o poder nascente mas crescente do islã começou a alarmar os governantes aristocratas da cidade. Os decretos do Profeta contra a idolatria atingiram duramente o sistema de peregrinação à Caaba, fonte fundamental de riqueza. Sua defesa dos pobres desagradou os ricos. Uma das propostas islâmicas que achavam particularmente odiosa era a zakat, uma contribuição obrigatória anual como caridade de 2,5 por cento do excesso de riqueza de uma família — isto é, de qualquer dinheiro ou posse não necessários para a manutenção da família. Zakat significava literalmente "purificar" e essa contribuição anual aos pobres destinava-se a ajudar um muçulmano na busca da pureza. Os próceres da cidade, liderados pelo poderoso ramo omíada da tribo coraixita, lançaram primeiro uma campanha de ridicularização e depois de intimidação violenta. Um dignitário do próprio clã hachemita de Maomé voltou-se contra ele e alguns de seus seguidores fugiram para a Etiópia. Mas Maomé ficou e continuou a pregar.
     A oportunidade veio da cidade de latribe, num oásis a cerca de 400 quilômetros ao norte de Meca, onde duas tribos árabes hostis — os Aws e os Khazaraj — estavam sempre brigando entre si ou com os vários clãs judeus que também viviam na região. Em peregrinações a Meca, árabes de ambas as tribos ouviram a mensagem de Maomé e converteram-se ao islã. Nos anos seguintes, esses novos muçulmanos chamaram Maomé para morar na cidade deles, pois em Meca sua liberdade e sua vida estavam ameaçadas. Em 622, ele partiu para latribe em companhia do amigo Abu Bakr. Esse êxodo de Meca ficou conhecido como hijra — literalmente, "fuga" —, "hégira" em português. O evento marcaria de forma indelével a fé e o calendário islâmico. Os muçulmanos passaram a contar os anos a partir daquela data e o oásis ganharia um novo nome: Medina, a cidade do Profeta.
     Maomé estava armado de considerável autoridade moral. Continuou a pregar e converter, mas também trabalhou para deslindar os nós da política de Medina. Na verdade, suas palavras começaram a tratar cada vez mais de assuntos mundanos. No islã, não haveria diferenciação entre as preocupações religiosas e as seculares. Todos os aspectos da vida eram governados pelas doutrinas da fé. A pregação de Maomé voltou-se para temas práticos como casamento e divórcio, herança, punição para roubo e outros crimes e até questões de dieta e higiene pessoal. O Profeta prescrevia regras para o comportamento doméstico e explicava detalhadamente como deveriam ser as relações entre seus seguidores e os não-crentes. Todos os seus preceitos eram apresentados como revelações do Todo Poderoso, embora alguns parecessem derivados dos costumes tribais. Como profeta e estadista, Maomé era agora responsável por uma considerável comunidade islâmica e procurava combinar com habilidade ambos os papéis.


     Seu centro de operações era um conjunto construído com tijolos de barro no meio do oásis, com uma fileira de cabanas defronte de um grande pátio murado. As cabanas abrigavam sua crescente família, pois Cadija morrera durante os últimos anos negros em Meca e o Profeta tomara várias esposas. Era no pátio, de maneira tipicamente árabe, que Maomé conduzia seus negócios, julgando disputas, recebendo delegados da cidade e dirigindo-se aos seguidores.
     Também no pátio Maomé pregava a mensagem e seus seguidores memorizavam suas palavras ou inscreviam-nas em pedaços de pergaminho, folhas de palmeira ou couro — o que estivesse à mão. (Mais tarde, estudiosos islâmicos recolheriam esses fragmentos orais e escritos para compilar o Corão, livro sagrado do islã.) Aí também, ao nascer do Sol, ao crepúsculo e em outros momentos fixados, a comunidade realizava ritos de devoção, entoando: "Louvado seja Alá, Senhor da Criação, o Piedoso, o Misericordioso, a Ti somente adoramos e a Ti somente rezamos por ajuda". Então prostravam-se, à maneira dos judeus, com a cabeça voltada para Jerusalém, cidade significativa na vida de Abraão e de outros profetas, inclusive Jesus. Mais tarde, o Profeta transmitiu uma ordem de Alá para que os muçulmanos orassem na direção da Caaba, o santuário de Abraão em Meca.

     Maomé dispunha de poucos meios de sustento material. A principal atividade do oásis era o cultivo de tamareiras, para o qual os emigrados de Meca, ex-comerciantes e condutores de caravanas, não tinham aptidão, sobrevivendo graças a doações dos anfitriões. A autossuficiência era essencial se o islã quisesse crescer e florescer. Fazia parte da tradição do deserto que um povo necessitado atacasse alguém para suprir suas exigências materiais. E os muçulmanos tinham como inimigos naturais seus antigos perseguidores, os coraixitas de Meca. Os homens de Maomé começaram então a atacar caravanas coraixitas a caminho da Síria.
     As primeiras incursões foram um fracasso. Os muçulmanos, sempre em menor número, não conseguiam interceptar as caravanas, ou eram facilmente repelidos por forças superiores. Nenhum sangue era derramado e nenhum butim conquistado. Então, no início de 624, um bando muçulmano atacou um comboio de camelos perto de Meca, matando um dos membros da escolta. O carregamento seguinte, uma grande caravana de cerca de setenta mercadores, transportando 50 mil dinares em mercadorias, deveria passar em breve pelo caminho entre Gaza e Meca. Todas as principais famílias coraixitas haviam investido nela. Para garantir a segurança dessa valiosa caravana, reuniram uma força de 950 guerreiros armados; que partiram para o norte a fim de escoltá-la.
     O bando de Maomé, composto por cerca de trezentos homens, escondeu-se em torno de um poço em Badr, vilarejo próximo a Medina. O lugar foi escolhido com sabedoria. Quando as forças de Meca se aproximaram do poço, os muçulmanos atacaram, desencadeando uma tempestade de flechas. Antes, o Profeta baixara um decreto: "Ninguém que lute neste dia e se comporte com coragem inabalável (...) encontrará a morte sem que Alá o leve para o Paraíso!" Entusiasmados com essa promessa, os islamitas caíram sobre os soldados de Meca, pondo-os em fuga. Os vitoriosos logo descobriram que, infelizmente, a caravana cobiçada escapara por uma rota diferente. Mas a derrota dos guerreiros coraixitas, valiosa por si mesma, forneceu alguns despojos: 150 camelos, dez cavalos, numerosos armamentos e vários cativos, pelos quais pediriam resgate. Maomé ficou com parte do butim para distribuir entre os necessitados e deu o restante em porções iguais para seus soldados. A Batalha de Badr deu enorme impulso ao moral e ao prestígio de Maomé e seus seguidores, sendo vista como um sinal tangível do favor de Deus, um endosso divino do islã. O Profeta tornou-se uma figura amplamente admirada, mesmo entre os beduínos que patrulhavam as rotas de comércio do deserto, para os quais não havia sucesso como a vitória em batalha.
     Embora uma derrota no ano seguinte para uma força coraixita nas encostas do monte Uhud tenha custado o prestígio dos muçulmanos aos olhos dos beduínos, o establishment de Meca ainda via o poder crescente de Maomé como uma ameaça. Não podiam permitir que continuassem os ataques a suas caravanas. Assim, na primavera de 627, um exército de 10 mil homens partiu de Meca para Medina, confiante num triunfo rápido e arrasador. Mas quando chegaram a Medina, logo se decepcionaram. Maomé, ao saber das novas, mandara cavar um enorme fosso nos pontos vulneráveis a um ataque de cavalaria — estratagema que, segundo a tradição, fora sugerido por um converso da Pérsia. Os soldados de Meca tentaram vários assaltos em vão, no curso das duas semanas seguintes. Por fim, com água e provisões acabando, voltaram para casa.
     A Batalha do Fosso pode não ter sido um grande triunfo militar, mas confirmou o status de Maomé como líder a ser considerado, além de despertar sua má vontade contra o último grupo de judeus residentes em Medina. Após as batalhas em Badr e Uhud, um dos clãs judeus locais fora acusado de conspirar com o inimigo. Maomé, acreditando nas acusações, expulsara as famílias da cidade. Agora, ficara sabendo que o último clã judeu, chamado Banu Qurayza, colaborara com os clãs de Meca. Os muçulmanos, numa reação implacável, passaram os homens judeus na espada e venderam as mulheres e crianças como escravas. Entre muçulmanos e judeus se estabelecia uma atitude de intensa animosidade mútua que se tornaria um recorrente traço debilitador da vida e da política no Oriente Médio.
     Com o fiasco de seu exército em Medina, os senhores de Meca viram seus piores temores se realizarem. As tribos beduínas do Hedjaz começaram a romper seus laços de fidelidade, preferindo tratar com Maomé. Os muçulmanos passaram a controlar mais e mais rotas de comércio. Procurando ganhar força, Maomé negociou uma trégua com os coraixitas que lhe permitiu peregrinar a Meca.
     Era a chance que estava esperando. Uma vez na cidade em que nascera, começou a fazer conversões, inclusive de um dos líderes militares da cidade. Finalmente, em 630, sentiu-se forte o suficiente para voltar com tudo. No comando de um exército de 10 mil homens, avançou contra as portas da cidade. Os líderes coraixitas, intimidados, logo se renderam. Pouco sangue foi derramado e nenhuma represália tomada. Em massa, os habitantes de Meca abraçaram a nova religião.
     Na verdade, a submissão a Alá foi notavelmente indolor. Maomé dedicou a Caaba ao único deus verdadeiro, Alá, e limpou o santuário de seus numerosos ídolos. Mas, para alívio dos mercadores de Meca, as peregrinações continuariam; a hagg — peregrinação a Meca — tornou-se obrigatória para todos os crentes. As caravanas voltaram a realizar suas jornadas, agora sob a proteção do islã. O único peso financeiro para os mercadores era a contribuição legal para os pobres (zakat).
     Maomé voltou em triunfo para Medina, sua capital de adoção. O anterior gotejamento de delegados das tribos do deserto assumia agora proporções de inundação. Em troca da garantia de independência e do direito de continuar em sua vida nômade, os beduínos concordavam em prestar lealdade a Maomé e pagar a zakat. Aparentemente, a maioria também aceitou o islã. Embora frágil, como se revelaria, esse pacto era uma realização extraordinária. Pela primeira vez, a maior parte da Arábia estava unida sob a mesma bandeira, a do islã e de seu carismático líder. Em uma exortação final, Maomé declarou: "Saibam que cada muçulmano é irmão do outro muçulmano e que agora sois uma única irmandade".


     A missão do Profeta chegara ao fim. Com mais de 60 anos de idade, foi atingido, por uma doença súbita. Retirou-se para a cabana de Aisha, sua esposa favorita, e designou o pai dela, seu velho amigo Abu Bakr, para dirigir os serviços, religiosos em seu lugar. Então, a 8 de junho de 632, entregou a alma a Alá. A morte de Maomé mergulhou a comunidade muçulmana numa crise. Embora ninguém o considerasse imortal, também não tinham previsto sua perda imediata. O islã podia ter jogado uma rede enorme, mas um único homem segurava as pontas. Todos os editos, todos os atos de governo, todas as decisões estratégicas haviam sido somente de Maomé. E de acordo com a versão ortodoxa dos eventos, aceita pela maioria, dos muçulmanos, nenhuma providência fora tomada quanto ao sucessor.
     Na sociedade árabe tradicional, escolhiam-se os líderes tribais por consenso. Os mais velhos do clã reuniam-se e fechavam um acordo pelo qual um deles era nomeado xeque. Mas o islã, pelo menos em teoria, sobrepunha-se aos clãs. Na confusão do momento, vários grupos rivais reivindicaram preeminência. Os nativos de Medina formavam um partido e os primeiros conversos de Meca, outro; ambos afirmavam sua autoridade para escolher o sucessor do Profeta. Por fim, elegeu-se um candidato de compromisso: Abu Bakr — meigo, devoto, sábio com a compreensão de seus 60 anos e o primeiro seguidor de Maomé fora de sua família. Apesar da escolha parecer perfeita, uma facção não ficou satisfeita. O parente mais próximo de Maomé era seu primo Ali, que crescera na casa do Profeta, casara com a filha deste, Fátima, e lhe dera os dois únicos netos. Alguns muçulmanos achavam que Ali, como herdeiro natural de Maomé, deveria ser o novo chefe de estado.
     Abu Bakr assumiu o título de califa — "sucessor". Sua primeira tarefa foi lidar com a defecção em massa de muitas tribos árabes. Essas tribos sustentavam que deviam lealdade a um líder, não a uma ideologia, e com a morte do Profeta consideravam-se isentas de obrigação. Mas qualquer diminuição da influência do islã nesse momento crucial teria sido desastrosa para os sucessores de Maomé. Assim, o novo califa enviou seus melhores generais para submeter os desertores. Em 634, após dois anos de conflito sangrento, a bandeira do islã flutuava triunfalmente em toda a Arábia e nas regiões fronteiriças da Síria e do Iraque.
     Nesse período, Abu Bakr sucumbira à idade avançada e outro califa assumira o comando: Omar ibn al-Khattab. O mais forte e mais decidido dos companheiros próximos de Maomé, Omar acreditava que sua missão era expandir vigorosamente o domínio do islã. Além de disseminar a fé, uma política expansionista talvez constituísse também uma válvula para os instintos guerreiros dos beduínos. Em vez de ameaçar Medina ou brigar entre si, poderiam marchar contra os infiéis, sustentando o princípio islâmico do gihad, a "luta no caminho de Deus". Gihad implicava, de início, uma batalha da consciência contra as tentações de Satã. Mas logo assumira feições militares e heroicas: uma guerra santa contra os incréus.
     E assim começou a marcha. Liderada por generais coraixitas — em especial, o magistral Khalid ibn al-Walid, "a Espada de Alá" — os árabes invadiram a Mesopotâmia, a Palestina e a Síria. Em 635, tomaram Damasco depois de um sítio de seis meses. Quando as forças de Constantinopla partiram em seu encalço, os muçulmanos desapareceram no deserto para esperar sua hora. Ela chegou no ano seguinte, no Yarmak, um rio da Jordânia: 25 mil homens emergiram de uma tempestade de areia e derrotaram o dobro de soldados de uma força de Bizâncio. O irmão do imperador Teodoro morreu na batalha. Depois, caíram as cidades sírias de Antióquia e Alepo. Em 637 os muçulmanos tomaram Jerusalém.
     Voltaram-se então para o leste, atravessando o sul do Iraque e atingindo o coração da Pérsia. Em outra tempestade de areia, puseram os exércitos persas em debandada na batalha de al-Qadisiya, em 637. Atravessando o Tigre, tomaram facilmente Ctesifonte, a capital sassânida. Os guerreiros do deserto fizeram uma pausa para admirar as maravilhas da metrópole mais suntuosa do Oriente Médio, com palácios repletos de tapetes e móveis deslumbrantes e depósitos transbordando de ouro. Alguns árabes jamais haviam visto ouro na vida, não sabiam seu valor e trocaram suas cotas por volumes iguais de prata. Tomando a cânfora por sal, temperaram a comida com os cristais medicinais. Retomaram, então, a marcha em direção às fortalezas do planalto iraniano: Isfahan, Nihavand e Ecbátana, na terra dos medos; e lstakhr, berço do Império Sassânida. Todas caíram. Em menos de uma década, os muçulmanos tomaram de roldão todo o território até a fronteira da Índia.
     A eficiência feroz dos guerreiros do deserto e seu fervor islamita contribuíram para essa explosiva campanha de conquista. Pequenos em número e lépidos na tática, confundiam seus oponentes. Viviam da terra, não dependendo de linhas de suprimento vulneráveis. Usando o deserto como refúgio, podiam escolher a hora e o local das batalhas; disparando ataques nos momentos oportunos e depois recuando para a imensidão arenosa que desencorajava a perseguição. O pequeno e forte cavalo árabe era sua montaria nas batalhas. Mas os camelos forneciam sustento e transporte para as longas distâncias áridas nas campanhas mais longínquas.
     Outra vantagem era o enfraquecimento dos dois grandes impérios do Oriente Médio. Bizâncio e Pérsia tinham exaurido suas forças ao longo de séculos de antagonismo e guerra, depauperando suas economias e pondo à prova a lealdade de seus súditos. Problemas políticos internos perturbavam os dois impérios e ambos confiavam em estados-tampões árabes para proteger suas fronteiras do deserto — uma posição pouco segura em face da cruzada pan-arábica do islã.
     E havia também a irresistível atração da própria religião, cujas exigências básicas eram simples. Havia apenas cinco requisitos, chamados de Cinco Pilares: reconhecer que Alá era o único deus e Maomé seu profeta; orar cinco vezes por dia voltado para Meca; jejuar durante o mês do ramadã; pagar a zakat; e, se possível, fazer pelo menos uma peregrinação a Meca. As recompensas do islã também eram atraentes, particularmente para os árabes. Não só se uniriam com seus irmãos de raça num movimento unificador de grande força espiritual, mas também compartilhariam das recompensas da vitória. Os códigos simples do islã ofereciam ainda a libertação do jugo bizantino ou persa. Em consequência, a expansão do islamismo fez-se tanto por conversão quanto por conquista. Veja-se o caso dos gassânidas, vassalos árabes de Bizâncio na Síria. Como medida de economia, o imperador suspendera o subsídio que recebiam para patrulhar as fronteiras, o que provocara rancor imediato. Além disso, pertenciam a uma seita cristã, o monofisismo, que fora fortemente censurado por Constantinopla. Assim, quando as tropas muçulmanas atacaram a Síria, os gassânidas sabiam o que fazer: mudar de lado e abraçar o islamismo.

Desta magnífica sala do trono, parte do palácio islâmico de Khirbat al-Mafjar, no vale do rio Jordão, distribuíam-se favores e anunciavam-se mandatos ao povo da Palestina conquistada. O governante local, ou califa, ocupava a alcova parcialmente coberta por um domo, enquanto os que aguardavam suas decisões sentavam-se em bancos ao longo das paredes da sala principal, iluminada pelas janelas do domo. Boa parte do reboco era pintada para parecer mármore; no mosaico no chão da alcova (detalhe), representando uma árvore e animais, o leão que aparece atacando uma gazela talvez simbolizasse o poder imperial do islã.

     Insatisfação semelhante prevalecia no Egito, onde os impostos eram pesados, o populacho irrequieto e irrompera uma disputa teológica entre Constantinopla e o patriarca copta local. Em 639, quando um general muçulmano atravessou a fronteira, muita gente saudou os invasores como libertadores. Várias batalhas difíceis foram travadas contra as guarnições bizantinas; o cerco de Alexandria, a capital, durou um ano, mas em 642 todo o Egito estava em mãos árabes.
     Na maioria dos casos, a mudança para o domínio muçulmano foi notavelmente suave e indolor. O califa Omar, governando de uma modesta construção em Medina, revelou-se um administrador sábio e eficaz. Permitiu que os povos conquistados mantivessem suas próprias leis e crenças religiosas. Ninguém foi forçado a converter-se ao islamismo. Os administradores locais continuaram em seus postos, sob a supervisão de um oficial árabe graduado. Os impostos eram geralmente mais leves do que sob os regimes imperiais e cumpria-se a justiça à risca. Como observou um nativo da Síria: "Gostamos muito mais de vosso governo e de vossa justiça do que do estado de opressão e tirania sob o qual vivíamos".
     Em 644 Omar foi derrubado, no auge de suas forças. Preparava-se para dirigir as preces matinais na mesquita de Medina, quando foi assassinado por um escravo persa com uma adaga envenenada. Omar seria reverenciado como o maior dos primeiros califas. No leito de morte, ele escolheu seu sucessor: Othman, outro converso antigo, conhecido por sua devoção e boa índole. Membro do clã omíada, o ramo mais poderoso e aristocrata dos poderosos coraixitas, recebeu o apoio do establishment mercantil de Meca. Com ele, o domínio muçulmano expandiu-se ainda mais — para a Armênia, a Ásia Menor, a Bactriana e outros territórios da Ásia central —, mas a década das grandes conquistas acabara. E uma transformação sutil começou a mudar gradualmente o caráter do regime islâmico. Uma imensa riqueza passou a chegar dos territórios recém-adquiridos e com ela vieram todos os vícios da corrupção e da vida fácil. Os postos militares deixaram de ser simples conjuntos de barracas para se tornarem comunidades de alvenaria com mesquitas, bazares e oficinas de artesãos. Meca e Medina prosperaram. A austeridade do islã começou a desaparecer. Poucos anos antes, Omar demitira seu melhor general — Khalid, a Espada de Alá — por ter-se banhado em vinho e contratado poetas para cantar suas glórias. O próprio Omar dormira em cama de folhas de palmeira e usara à mesma túnica de lã até desfazer-se em pedaços. Othman, por outro lado, apesar do temperamento devoto e moderado, aumentou sua já considerável riqueza pessoal durante seu governo. Também favoreceu parentes com nomeações para cargos importantes, uma política que irritou os muçulmanos de tribos menores.
     A insatisfação fervilhava nas guarnições. Os guerreiros com as espadas embainhadas estavam cada vez mais indóceis e Othman não tinha a firmeza necessária para controlá-los. Em 655, irrompeu a primeira revolta, em Cufa, perto de Ctesifonte, atual Iraque. Seguiram-se outros motins. Uma delegação chegou do Egito exigindo que Othman abdicasse. Diante da recusa do califa, os emissários egípcios invadiram o palácio, onde o encontraram lendo o Corão. Abateram-no ali mesmo.
     Esse ataque regicida abriu uma ferida no islã que jamais cicatrizaria. O próximo califa a ser escolhido foi Ali, o primo do Profeta, que perdera a primeira eleição muitos anos antes. Sua ascensão era um triunfo para os anti-omíadas e para uma facção dos "legitimistas", que acreditavam que a direção do islã deveria ficar nas mãos do herdeiro mais próximo de Maomé. Porém havia muitos que discordavam. O protesto mais alto veio de Aisha, a viúva do Profeta, que havia muito tempo não se dava com Ali por questões de família. Ela juntou forças com Talha e Zubayr, dois dignitários de Meca que tinham seus próprios desígnios para o califado, e os três rumaram para Basra, no Iraque, onde reuniram um exército e lançaram seu desafio.

O longo braço da autoridade muçulmana ia além das terras conquistadas, como registra esta carta escrita sobre papiro, em 758, por Moussa ibn Kab, governador árabe do Egito. Nela, exige que o rei da Núbia honre certos acordos - inclusive a passagem segura para egípcios - e pergunta sobre um mercador que ficara preso naquele país e possivelmente fora assassinado. O detalhe mostra parte da escrita cúfica: "Mande-nos o mercador de Muhammad ibn Zayd e a riqueza que estava com ele, a não ser que tenha sido morto; nesse caso, mande os mil dinares, seu dinheiro mercenário".

     Ali não tinha habilidade política, mas não era covarde. À frente de sua própria força de guerreiros marchou para o Iraque. Em Cufa, local da primeira revolta e uma cidadela de fervor religioso, levantou mais reforços. Os dois lados se confrontaram nas cercanias de Basra, e Aisha assistiu montada em um camelo. Suas esperanças logo se desvaneceram: as forças de Ali ganharam uma batalha particularmente sangrenta. Os dois principais rebeldes morreram na luta, junto com outros 13 mil, e Aisha foi mandada em desgraça para Medina. A Batalha do Camelo foi o primeiro grande choque entre muçulmanos, estabelecendo um precedente agourento.
     Uma ameaça mais séria surgiu em Damasco, governada por Muawiya, primo do califa omíada assassinado. Muawiya achava que Ali não se esforçara para levar os assassinos de Othman a julgamento. Clamando por vingança, fez da camisa manchada de sangue de Othman sua bandeira.
     O confronto armado era inevitável e ocorreu em 657, perto das ruínas da cidade romana de Siffin, junto ao Eufrates. A princípio, a batalha foi favorável a Ali. Mas Muawiya contava com uma manobra engenhosa: mandou seus homens prenderem páginas do Corão na ponta de suas lanças. Então avançaram aos gritos de "Que Deus decida". Nenhum muçulmano devoto derrubaria o livro de Deus. Houve um pedido de arbitramento e Ali, contra a vontade, foi obrigado a concordar. Muawiya voltou para Damasco e Ali retornou para Cufa, que adotara como capital, tendo sofrido uma derrota moral. Aos poucos, seu prestígio declinou. Um grupo de antigos partidários, os carijitas, organizou uma revolta que Ali mal conseguiu abafar. Então, em 661, tombou sob uma adaga carijita.
     A morte de Ali marcou o fim de uma era. Os quatro primeiros sucessores de Maomé, conhecidos pelos cronistas árabes como os califas "bem guiados", eram homens de profunda devoção e lealdade. Todos estavam relacionados ao Profeta e destacavam-se entre seus primeiros conversos. Haviam reinado numa época de mudança e expansão exuberante, quando o islã ainda era uma flor pura, quando a dedicação a Alá parecia ser o bem supremo e antes que as alegrias da conquista tivessem se solidificado nas pesadas estruturas de um domínio imperial. Mas o islã era agora um império, o maior do mundo, e precisava de um governante que pudesse tomar as rédeas do poder e manejá-las com habilidade e determinação. Muawiya acreditava que não havia melhor candidato do que ele próprio.
     Primeiro a Síria e depois, aos poucos, o resto do império aclamaram Muawiya como califa. Quando os militantes de Cufa propuseram o nome de Hasan, filho mais velho de Ali, Muawiya soube exatamente o que fazer. Diante de uma generosa oferta de renda vitalícia, Hasan renunciou à candidatura e retirou-se para um harém em Medina, onde, segundo um relato, se casou com — e divorciou-se de — cerca de noventa beldades árabes antes de morrer aos 45 anos.

Estes mosaicos do interior da Grande Mesquita de Damasco, com belos detalhes e cores delicadas, oferecem praticamente um catálogo da arquitetura muçulmana: de palácios ornamentados e prédios públicos com muitas colunas (abaixo) a conjuntos de modestas casas de vilarejos (acima) com suas janelas estreitas características, situadas logo abaixo do telhado. Executados por volta de 706, os mosaicos de Damasco mostram como os artesãos islâmicos absorveram com rapidez e perícia as técnicas artísticas dos países conquistados, em especial as do Império Bizantino, com sua longa tradição na arte dos mosaicos.


     Muawiya fez de Damasco sua capital, onde os alicerces de sua administração já estavam firmemente implantados. O aparelho administrativo, herdado dos tempos romanos, mantinha muito da antiga estrutura imperial. Escribas cristãos ocupavam postos-chaves e realizavam suas tarefas em grego ou aramaico. O principal secretário do califa era um cristão. Ao lidar com seus companheiros árabes, cujo senso de superioridade racial ele incensava, o califa apresentava-se como um xeque tribal, como o primeiro entre iguais. Mas seu controle sobre o império jamais era contestado, pois era um político magistral. "Se um único fio de cabelo ligar-me a meu povo, eu não o deixarei romper-se", dizia o califa; "quando eles puxam, eu afrouxo, e se eles afrouxam, eu puxo".


     Era preciso mão firme no Iraque, onde grupos rebeldes ainda causavam problemas. Para lá, o califa nomeou uma série de governadores árabes que foram impiedosos em liquidar as dissensões. Em Basra, o governador, falando da principal mesquita, anunciou um toque de recolher: "Cuidado com as andanças noturnas; matarei todos que forem encontrados nas ruas à noite".
     Muawiya foi o primeiro de uma linhagem de califas omíadas que governariam o império durante quase um século. Todos esses sucessores eram seus descendentes diretos — uma transição para uma norma dinástica que ele realizou com a simples nomeação de seu filho mais velho para sucedê-lo. Numa reverência à tradição do deserto, obteve o consenso de seus assessores árabes e dos chefes tribais, mas estabelecera-se um precedente. A teocracia eletiva foi substituída pelo processo hereditário de todos os regimes imperiais.
     Sob os Omíadas, o governo do islã continuou a seguir a trilha cada vez mais secular iniciada por Muawiya. Meca e Medina continuaram como centros religiosos, mas o poder mudou-se para a irreversivelmente mundana e cosmopolita Damasco. Ao mesmo tempo, a convulsão política e cultural deflagrada pela conquista de nações altamente civilizadas por povos tribais começou a amainar, dando lugar à ordem social. Os conquistadores árabes, como a casta guerreira dominante, controlavam o topo da pirâmide social. Um estipêndio governamental supria parte de suas necessidades materiais. Muitos adquiriram latifúndios, apesar de uma antiga proibição à posse de propriedades fora da Arábia. Muitos ainda lucravam com as caravanas comerciais. A única obrigação financeira era o pagamento da zakat.
     Mas surgiu um problema com o número crescente de súditos estrangeiros que se convertiam ao islã. O número de não-árabes que abraçava a nova fé logo se tornou maior que o de árabes, que assim se viram numa situação embaraçosa. Maomé havia dirigido sua mensagem para seus companheiros árabes; contudo, também decretara que todos os crentes deveriam ser tratados como irmãos. Como poderia um árabe ter um irmão não-árabe? E como poderia um muçulmano árabe manter seu status elevado se teria de compartilhá-lo com todo mundo? Havia também uma complicação financeira: enquanto os muçulmanos pagavam a zakat, os não-muçulmanos estavam sujeitos a tributos mais pesados, inclusive um imposto por indivíduo e taxações sobre a propriedade que forneciam a maior parte dos fundos do estado. Muitas conversões ocorreram na esperança de escapar desses tributos, mas sem eles o estado iria à falência. E assim novos impostos sobre a terra foram introduzidos sem levar em consideração se o proprietário era árabe ou não, muçulmano ou incréu. Os mawalis, muçulmanos não-árabes, permaneceram cidadãos de segunda classe.
     Bem abaixo na pirâmide social estavam os judeus e cristãos — o "Povo do Livro", como os designava o Corão. Gozavam de completa liberdade religiosa e, ao pagar o imposto individual, ganhavam isenção do serviço militar — benefício mais tarde estendido aos zoroastristas monoteístas da Pérsia. O povo do deserto só podia se maravilhar com a sofisticação cultural desses três grupos, que tendiam a ocupar as fileiras da administração governamental, mas que eram socialmente inferiores aos árabes. Na base da pirâmide estavam os escravos — gregos, turcos, armênios, berberes e africanos negros — capturados nas conquistas, geralmente vendidos.
     Com o tempo, os governantes de Damasco e seus representantes nas capitais orientais começaram a adquirir o polimento urbano de seus súditos. Em 696, o califa Abd al-Malik decretou o árabe como língua oficial do império e substituiu as antigas moedas correntes bizantinas e sassânidas por novas moedas árabes, estampadas com inscrições islâmicas. Uma cultura distinta começou a tomar forma, misturando a augusta herança de Roma e da Pérsia com as lições do Profeta e as cadências ressoantes da língua arábica. Apesar de todo o orgulho racial, os árabes tinham grande respeito pelas realizações das civilizações passadas, pela erudição e, em particular, pela palavra escrita. Escribas começaram a estudar as obras dos antigos, inclusive a ciência e a matemática dos gregos. A tradução para o árabe desses textos meio esquecidos levou a um renascimento intelectual que moldaria o pensamento árabe ao longo dos séculos — e preservaria uma herança ameaçada de desaparecer.
     Sob os Omíadas, uma nova onda de conquistas foi deflagrada, estendendo o império a sua dimensão máxima. Muawiya principiou por avanços no norte da África e no leste da Pérsia, mas seu verdadeiro objetivo era Bizâncio. Mobilizando a primeira marinha do islã, limpou o Mediterrâneo dos navios bizantinos e assediou por duas vezes Constantinopla. Seus sucessores, após alguns anos de consolidação, retomaram a campanha. Penetraram no Turquestão, capturando Bukhara e Samarcanda, e atravessaram o Afeganistão até a fronteira da China e o vale do Indo. Outros exércitos avançaram pelo norte da África até o estreito de Gibraltar. Em 711, espalharam-se pela Espanha e atravessaram os Pireneus, penetrando na França. Chegaram até 160 quilômetros de Paris, antes que o soberano franco Carlos Martel os derrotasse na Batalha de Tours, em 732.

Frondes abstratas decoram este prato de barro esmaltado feito na Mesopotâmia muçulmana, no século IX. Os artesãos árabes aprenderam a técnica do barro esmaltado no Egito - e obtiveram progressos com ela. Os egípcios faziam objetos de vidro com superfícies brilhantes aplicando  pigmentos que continham compostos metálicos e depois queimando-os no forno, de tal forma que os metais se transformavam em óxidos polidos. Os artesãos islâmicos usaram o processo para decorar cerâmica. A frase em árabe na borda do prato reproduz votos de "boa sorte para o dono".

     Apesar desses triunfos no exterior, os Omíadas enfrentavam levantes dentro de seus domínios. As velhas facções dissidentes que reivindicavam o califado nunca se acalmavam. Um dos desafios mais sérios ao domínio omíada veio de Meca, lançado por Abdulla ibn al-Zubayr, filho de Zubayr, que se unira à viúva Aisha e morrera na Batalha do Camelo. Em 683, durante um breve interregno em Damasco, Abdulla reivindicou o califado. Combinando força e diplomacia, ganhou o apoio de importantes líderes muçulmanos e começou a atiçar as brasas da revolta.
     Por fim, chegou ao poder um omíada forte o suficiente para lidar com Abdulla: Abd al-Malik, o califa que construiria a Cúpula da Rocha em Jerusalém e lançaria a nova moeda islâmica. Sua solução foi um assalto a Meca. Para essa missão enviou seu general mais feroz, que devastou a cidade sagrada. Mísseis de pedra caíram no centro religioso. A Caaba pegou fogo e o meteorito sagrado rachou, mas a rebelião foi debelada e Abdulla esquecido.
     Porém o caldeirão de ressentimentos continuava a ferver, estimulado pelas iniquidades econômicas e sociais e pelos métodos cada vez mais ditatoriais dos governantes omíadas. Um foco perpétuo de descontentamento era o Iraque, onde ainda havia muita simpatia pelas pretensões de Ali, o último dos califas "bem guiados". Em 680, Husayn, segundo filho de Ali e único neto vivo do Profeta, atravessava o deserto com um pequeno bando de partidários, para unir-se aos rebeldes do Iraque, quando foi surpreendido em Karbala por uma força governamental muito maior, a qual, ante a recusa de rendição, abateu até o último homem. A cabeça de Husayn foi mandada como troféu para Damasco. A insatisfação com o regime era crescente e o incidente tornou-se um símbolo de oposição heroica. Surgiu um movimento político chamado Xiat Ali — o Partido de Ali — , dedicado a restaurar a linhagem de Ali. Células xiitas irromperam em todo o Império Muçulmano, em especial nas províncias orientais, e o local do massacre tornou-se um santuário. (Os xiitas viriam a ser uma das duas seitas primárias do islã, menor apenas que a dos sunitas, nome dado mais tarde aos muçulmanos ortodoxos que consideravam os primeiros quatro califas como sucessores legítimos do Profeta.)
     Outros grupos de oposição botaram lenha na fogueira revolucionária. Os carijitas, agora seguidores de Ali, continuavam a espalhar anarquia e confusão. Numeroso contingente de mawalis — os convertidos não-árabes — procurava maneiras de protestar contra seu status inferior; muitos deles se uniram às seitas xiitas que proliferavam. Nativos árabes de tribos menores, que não estavam participando da riqueza e do poder acumulados pelos bem-nascidos, murmuravam seu descontentamento. E muçulmanos devotos de toda parte levantavam os olhos do Corão e exigiam mudanças. Por fim, a mudança acabou vindo de uma aliança de conveniência entre todos esses dissidentes. No extremo leste do império, na província persa de Khura-san, uma família árabe descendente de Abu al-Abbas, tio do Profeta, começou a unir as forças da revolta.
     A Pérsia oriental, tal como o Iraque, sempre fora particularmente irrequieta sob o domínio dos Omíadas. Os conquistadores árabes haviam-se casado com a aristocracia sassânida local e se adaptado muito bem às maneiras e tradições persas. Os mawalis tinham grande influência no governo e nos círculos intelectuais da região, que era um foco xiita. Assim, quando os Abássidas, na tradição dos califas "bem guiados", e de defensores do islamismo, ergueram a bandeira negra da revolução, ganharam o apoio de todo o mundo muçulmano oriental.
     Os Abássidas depuseram o governante legalista de Khurasan em 747 e logo conquistaram o controle do planalto iraniano. Então, sob o comando do ex-escravo persa Abu, iniciaram sua marcha triunfal para oeste. Em 749, entraram em Cufa sob aclamação popular. Abu al-Abbas, chamado al-Saffah — o Derramador de Sangue —, tornou-se o primeiro califa abássida e foi acumulando vitórias. A última resistência legalista desabou na Batalha do Grande Zab, um afluente do Tigre, em 750. Al-Saffah celebrou com a decapitação dos Omíadas sobreviventes. Só escapou um dos membros dessa dinastia, Abd al-Rahman, que fugiu para a Espanha e estabeleceu uma corte em Córdoba, que brilharia nos séculos seguintes.
     No comando de grande parte do mundo muçulmano, os Abássidas começaram a construir um estado real islâmico que sobrepujaria seus predecessores em extravagância e em poder autocrático. A dinastia instalou sua capital em Bagdá, uma pequena vila sassânida um pouco acima das ruínas da esplendorosa Ctesifonte. Abu Jafar al-Mansur, sucessor de al-Saffah, iniciou a construção em 762, visando a defesa militar. As três muralhas concêntricas de Bagdá erguiam-se 27 metros acima da planície circundante e tinham quatro portões majestosos. O palácio ficava no centro, com o domo verde de sua câmara de audiências a 40 metros de altura. Ao lado erguia-se uma mesquita imponente e, em torno de ambos, os alojamentos do exército, as repartições do governo e a moradia dos altos funcionários.


     Nesse enclave, os califas abássidas mantinham uma corte mais parecida com a Pérsia imperial do que com a Arábia tribal. Assumiam títulos extravagantes, tais como "Sombra de Deus sobre a Terra". Alguns funcionários construíram quintas luxuosas às margens do Tigre, onde bebiam vinhos persas, mantinham amantes persas e divertiam-se com os encantos suaves de escravas perfumadas que cantavam canções persas. Contudo, os Abássidas também deram apoio enérgico às instituições islâmicas. Construíram mesquitas em todo o império, escolas para estudar o Corão e hospitais; além de expandirem o jardim em torno da Caaba e estabelecerem postos de guarda e poços ao longo das rotas de peregrinação.
     Com os Abássidas o império prosperou como nunca. Bagdá tornou-se o centro de um vasto empreendimento comercial. Caravanas e navios traziam ouro da Núbia, tecidos do Egito, tapetes da Armênia, rubis da Índia e especiarias das Índias Orientais. Da China vinham faisões e cavalos; feltro, seda e brocados; ruibarbo e drogas; escravas, engenheiros hidráulicos e eunucos. Escandinávia e Rússia forneciam cera, âmbar e peles de raposa, castor e arminho.
     O despertar intelectual que se iniciara em Damasco floresceu com a ajuda da introdução do papel e da tinta vindos da China. Fundou-se uma escola de medicina em Bagdá. Estudiosos analisaram cuidadosamente o Corão, compilando um corpo de leis chamado Sharia. Alguns poetas começaram a produzir uma lírica nova, mesclando os temas Sensuais do Oriente com as nuanças vibrantes do árabe, enquanto outros voltavam à prosa rimada da tradição heroica tribal.
     O poder e a energia criativa abássidas atingiram seu ponto mais alto durante o reinado de Harun al-Rashid, que se iniciou em 786 e acompanhou a virada do século. Mas então novas turbulências começavam e novas vozes dissidentes exigiam atenção. Em breve, líderes rivais chegariam ao poder em províncias distantes e as bordas do império começariam a se desfazer em pedaços. Os sucessores de Harun teriam grande dificuldade de manter sua supremacia sob a bandeira do islã.




A SAGA DO PROFETA é o primeiro capítulo do livro A MARCHA DO ISLÃ.
Os demais capítulos são: A FACE CAMBIANTE DA EUROPA; NASCEM IMPÉRIOS NO ORIENTE e O REINO DO SOL NASCENTE.
A MARCHA DO ISLÃ é parte integrante da coleção HISTÓRIA EM REVISTA.
Original Edition:  Copyright 1988 – TIME-LIFE Books B.V.
Authorized Portuguese Edition: Copyright 1990 – ABRIL LIVROS Ltda.
Tradução e adaptação para a língua portuguesa:
PEDRO PAULO POPPOVIC Consultores Editoriais S/C Ltda.
Tradução: PEDRO MAIA SOARES